UM PLÁGIO HISTÓRICO ?


Em 1864, no auge da Guerra da Secessão americana, o imperador dom Pedro II enviou ao presidente Abraham Lincoln o seguinte manifesto externando as preocupações do Brasil com as conseqüências daquela guerra:

“Falo em nome da humanidade e dos neutros da América do Sul, cuja indústria e comércio estão sendo seriamente afetados por essa guerra sem sentido. É inconcebível que o poderoso Estado do qual sou imperador não represente papel algum nesse acontecimento. Nenhuma paz que não inclua o Império brasileiro poderá manter o futuro a salvo de uma retomada dessa guerra indesejável.

"Garantem-me os estadistas dos Estados Confederados que não têm intenção de esmagar os Estados Unidos da América. Deve haver uma paz sem vencedor. A base da paz é a igualdade dos Estados.

"A humanidade busca a paz, e os Estados escravistas estão lutando pela liberdade, pelo sagrado direito de empregar os braços que trabalham à sua própria maneira. Falo pelos amigos da humanidade em todas as nações. Minha voz é a da verdadeira liberdade no mundo inteiro.

"Estes são os princípios do Brasil, a política do Brasil. E são também os sagrados princípios da humanidade.”

 

Em 1917, no auge da Primeira Guerra Mundial, o presidente americano Woodrow Wilson dirigiu esta mensagem às potências beligerantes:

“Falo em nome da humanidade e de todas as nações neutras, como a nossa própria, muitos de cujos interesses a guerra põe em perigo. É inconcebível que o povo dos Estados Unidos não represente papel algum nesse acontecimento. Nenhum acordo de paz que não inclua o povo do Novo Mundo conseguirá manter o futuro a salvo guerra.

"Garantem-me os estadistas dos dois lados agora em luta, em termos que não permitem erro de interpretação, que não têm intenção de esmagar o antagonista. Eles deixam entender que deve haver uma paz sem vencedor.

"A humanidade está buscando a paz, e não um equilíbrio de forças. Talvez seja eu entre todos os povos a única pessoa investida em alta função com liberdade para falar sem nada ocultar. Acredito estar falando pelas massas silenciosas do mundo inteiro.

"Estes são os princípios americanos, a política americana. São os princípios da humanidade, e devem prevalecer.”

 

E agora ? Que houve plágio é evidente. A identidade de pensamento e a repetição literal de frases inteiras não podem ter sido obras do acaso. Mas Wilson era um intelectual, um historiador, e não cometeria um plágio tão gritante. Está aí no que dá os governadores confiarem cegamente em seus secretários e escribas. Quem copiou o memorando do imperador foi um Joe Tumulty (1) qualquer da Casa Branca, fazendo umas modificações aqui e ali, e o presidente assinou em cruz.

(Esta matéria foi tirada de O Globo de 9 de julho de 1954, que transcreve também os originais em inglês dos dois documentos.)

(1) Joseph Patrick Tumulty, secretário particular de Woodrow Wilson primeiro no governo estadual de Nova Jersey, depois na presidência dos Estados Unidos.

FONTE: O Almanach de Piumhy- Restaurado por José J. Veiga- Editora Record


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