Almanaque.info apresenta:

Paschoa em quarta-feira de cinzas

Década de 30

SAINETE COMICO - por Alfredo Tabar -

 

 

 

 

 

PROLOGO

Vê-se do palco apenas o proscenio limitado por um segundo panno de bocca, que representa um écran cinematrographico.

O ensaiador entra e vem até a caixa do ponto - illustrado publico, o autor d'este sainete escreveu-o para um film, que, de facto, foi realizado; mas hoje á tarde, poucas horas antes do momento em que devia ser exhibido pela primeira vez, esse film foi destruido por um accidente estupido e irremediavel.

Como não desejamos suspender o espectaculo e despedirvos, o que importaria ademais restituirmos o vosso dinheiro, que já passamos a considerar nosso, tivemos a ideia de vos apresentar os personagens do film destruido, explicar-vos como são e o que iam fazer... Emfim, dar-vos uma ideia do film, que não podemos projectar.

(Chamando á esquerda) Andréa!

Andréa entra vestindo garrido traje á fantazia e tendo o rosto coberto por uma meia mascara.

O ENSAIADOR, apresentando - Andreá, a protagonista, linda moça moderna, com pouco cabello mas muito talento. Acaricia um projecto genial, tão genial que é o resumo e a synthese de todos os projectos, que andam pela cabeça de todas as mulheres, desde que completam quinze annos... até que chegam aos sessenta.

E não lhes digo mais, senão que está disposta a leval-o a cabo com a maior innocencia, depois de rezar a todos os santos de sua devoção.

(Andréa retira-se sorrindo).

O ENSAIADOR, chamando á direita - Luciano!

Luciano entra, vestido com um dominó e trazendo a mascara na mão.

O ENSAIADOR, apresentando - luciano. Robusto, sympathico... e até bonito. Não core, rapaz ... Entende um poco de box. Como estudante, joga bem foot-ball, em meia esquerda e é filho de uma senhora viuva muito rica ... Com tudo isso, tão candido e innocente que ainda não entendeu o que muitas moças lhe têm dito com os olhos... Ou se entende... não se dá por entendido. Mas como foi creado na roça, em uma fazenda, é possível que sua ingenuidade seja sincera... Em todo o caso, sincero ou não, é adoravel. (Luciano atira-lhe um directo e sahe). Estão vendo? não gosta de ouvir elogios.

(Chamando) Venancio! (Venancio entra, tambem mascarado) - O nosso amigo Venancio. Usa mais cabello do que sua linda irmã mas, seja dito aqui entre nós... tem menos ideias do que ella. Andréa faz d'elle o que quer. Apezar de sua insignificancia, tambem tem um papel no film.

ANDRÉA, chamando dos bastidores Venancio! (Venancio desculpa-se e sahe)

O ENSAIADOR - Falta ainda um personagem principal. (Chamando) Primitivo! (Este entra egualmente mascarado) Tenho o prazer de lhes apresentar Primitivo... mas se lhes disser quem é, adeus surpreza, adeus interesse do film. Não. O melhor é não dizer. Pode retirar-se (Primitivo retira-se).

Por fim não quero prival-os do prazer de vêr a Rita. (Rita entra. Felizmente nenhuma mascara occulta seu rosto, que é bonito a valer). É a creada de Andréa. Embora tenha uns olhos tão eloquentes, é muito discreta. Por ella não esperem saber cousa alguma. (Rita sahe sorrindo e fazendo o gesto de colher os labios com as pontas dos dedos.)

Muito bem. Conhecidos os personagens, tratemos de explicar o film.

Começa com um baile de mascaras em terça-feira de Carnaval. Um baile como todos os bailes, no qual uns pensam que se divertem; outros se divertem de verdade. Mocidade... Ah! mocidade! Dansa-se e entram a cada instante novos pares... Ahi vem par e meio... Isso é: - Luciano, trazendo Andréa pelo braço e Venancio, que os acompanha sózinho.  Mas não tarda a arranjar um par e começa a dansar.

Luciano dansa com Andréa... Não olhem muito para elle senão o desageitado vai pisar ainda mais os pés de Andréa... Que pena! Uns sapatinhos tão bonitos! Mas devem ser de aço, porque, a despeito das pisadellas, Andréa sorri como um anjo, conversando com Luciano. Mas seus olhos, de quando em quando, relanceiam inquietos, como se procurassem alguem.

Esse alguem surge, catastrophico, sob a forma de Primitivo.

Primitivo viu Andréa dansando com Luciano e pondo no rosto a mascara, que trazia na mão, avança para o par com arreganho furioso, detem-lhe a dansa e increpa Andréa com palavras , que devem ser terriveis porque ella acaba por se exaltar tambem e responde-lhe raivosa. Luciano, á vista d'isso, afasta Primitivo com gesto vehemente. Então, Primitivo arranca a mascara com gesto tragico e exclama: "Está tudo acabado entre nós. Amanhã devolverei suas cartas".

A ouvir essas palavras de rompimento, Andréa estremece mas replica: "E eu as suas!" Venancio sobrevem.

Primitivo afasta-se com prudente arrogancia.

Venancio propõe voltarem para casa. Andréa não consente; quer dansar, dansar muito, para se atordoar e esquecer, porem dansa preoccupada e triste, sem o sorriso com que, ha pouco, deslumbrava Luciano.

O baile continuava. Que haja um noivado a mais ou a menos neste mundo, que importa? Todos continuam a se divertir.

Mas... (Tosse). Começo a ficar cansado de fallar... De resto, os monologos só se toleram em Shakespeare. Eu vou me recolher aos bastidores. Os outros que lhe contem o resto.

Sahe de scena. O panno de bocca ergue-se e deixa vêr o palco. É uma sala na casa de Andréa. Portas ao fundo e aos lados. Moveis os usuaes, comtanto que haja uma grande poltrona. Sobre uma mesa, atirado, o dominó de Luciano com a mascara.

São nove horas da manhã. Rita está arrumando a sala. Abre-se a porta ao fundo e Andréa apparece com mantilha e livro de missa.

ANDRÉA - Elle ainda não despertou?

Rita vai ouvir junto a uma porta lateral - Não, senhora. Pelo menos não ouço ruido algum em seu quarto. Mas por que parece tão triste?

Houve alguma cousa hontem á noite?

ANDRÉA - Ah! Rita... Se soubesse...

RITA - Como hei de eu saber se a senhora não me disser?

ANDRÉA - Não. Agora não posso. Tenho que ir á egreja ouvir missa e tomar cinzas. Logo te contarei.

RITA - Mas diga-me ao menos ... Foi cousa assim tão grave?

ANDRÉA - Quando eu voltar ... (sahe).

RITA - Ora essa? Que mysterio! Nunca vi a senhorita assim.

Abre-se a porta lateral e apparece Luciano, mal penteado, abotoando o casaco.

RITA - Bom dia, Sr. Luciano.

LUCIANO, distrahidamente - Bom dia.

RITA - Pensei que acordasse mais tarde hoje.

LUCIANO - Acordar? Como havia eu de acordar se não dormi um só momento, durante toda a noite?

RITA - Meu Deus! Por que? Por accaso o baile? ...

LUCIANO - Não me falle nesse baile.

RITA, á parte - Máu! Tambem este não quer dizer cousa alguma ... (Alto) Quer que lhe traga o café?

LUCIANO - Não ... quero dizer: - sim. Ou melhor... Espere um pouco. O Sr. Venancio já se levantou?

RITA - Oh!... não... Hoje, antes de meio dia, não conte com elle. Não é como a senhorita, que já sahiu para a missa.

LUCIANO - Ah! Ella acorda assim tão cedo? É claro...

RITA - Que é o que é claro?

LUCIANO - Nada. Ao contrario. Está tudo escuro, peior do que escuro; está turvo. Mas faça-me um favor. Vá acordar Venancio. Diga-lhe que preciso de lhe fallar.


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