TRIBUNO POPULAR NAPOLITANO

MASANIELLO:

"Senhor dos Lazzaroni"


Em todas as idades, em todas as terras, homens humildes puderam escalar as alturas do poder e da grandeza, cercando-se de fama jamais sonhada e deixando, após sua morte, uma memória para sempre respeitada.

Entre esses, o almanaque.info, destaca nesta oportunidade, Tomaso Aniello d'Amalfi, por contração Masaniello, um humilde peixeiro Napolitano, que teve vida dramática e acidental e para o qual um velho monge, vendo-o pela primeira vez, predisse um destino mais alto do que o de um rei poderoso e um poder dominador curto, porém glorioso.

Esse homem em cujas mãos a sorte colocou uma grande cidade, para que dela fizesse o que bem entendesse; que, durante nove dias, foi o "senhor dos Lazzaroni" e "capitão-geral" do povo; que humilhou o poder da Espanha e que, finalmente, após encontrar seu fim terrível, conservou seu real esplendor, como verdadeiro herói da revolução, triunfando em meio de uma autodestruição, tendo erguido o archote da liberdade numa idade de opressão e, por sua coragem e inteligência pavimentado o caminho para a galante porem nati-morta Republica Parthenopiana (Nome antigo da cidade de Nápoles) dos últimos dias; ainda na Historia, Masaniello continua a ser trágico e glorioso, humano e inesquecível.

 A história teve seu inicio em Nápoles, em meados da décima sétima centúria, no apogeu do domínio espanhol sobre as lindas cidades do sul da Itália, que, por tantos e longos anos, gemiam sob o jugo inescrupuloso dos governadores estrangeiros, sempre prontos a explorar as massas e a aumentar seus próprios ganhos com a criação de novos impostos.

Nesse tempo, à frente do governo de Nápoles, agindo como interferente de Sua Majestade, o rei Felipe IV da Espanha, havia um vice-rei espanhol; em 1644, Duque D'Arcos substituiu Medina como vice-rei (figura ao lado).

O povo estava dividido em três categorias: os nobres, a classe média e a classe baixa ou "Lazzaroni". A última, a despeito de bem mais numerosa do que as duas outras classes juntas, tinha apenas um representante, enquanto as demais, entre si, possuíam cinco. Conseqüentemente, em todas as deliberações, os "Lazzaroni" perdiam a fala e, nessas condições o pobre nada podia esperar nem obter qualquer reconhecimento de seus direitos e, se acontecia, como ocorreu em muitas ocasiões, que seu representante fosse homem desonesto e inclinado a realizar negócios que a si próprio - e apenas - trouxessem proveito, as condições do pobre mais e mais se agravavam.

O rei, em Madrid, sustentava inúmeras e custosas guerras; portanto, vivia pedindo mais e mais dinheiro aos Napolitanos; além disso a flor da mocidade era compelida a abandonar seus trabalhos de agricultura para servir nas tropas do vice-rei. Os impostos surgiam, novos e esmagadores, cada novo dia.

Tais impostos eram cobrados pelos processos mais abomináveis. O vice-rei vendia o cargo de coletor desses impostos a qualquer individuo, que o comprava por elevadas quantias e tinha liberdade de usar todos os meios para recolher o dinheiro, com uma percentagem compensadora a seu favor. Para esse serviço preparou verdadeiro exército de bandidos. Mais ainda: tinham prisões e cortes de "justiça", que eles próprios dirigiam e que apenas serviam para fazer valer suas cobranças extorsivas. Para cada categoria e mercadoria havia uma exigência especial.

Os fiscais e os cobradores eram recrutados entre a massa de indivíduos de pior índole e sempre que a cobrança se tornava problemática, confiscavam as propriedades dos faltosos.

Nessas condições, seu quartel general se transformara depressa num grande armazém de mercadorias as mais variadas.

Os impostos eram pagos em mercadoria não só quando no interior das fronteiras do território napolitano, porem nas portas de todas as grandes cidades. Quando fora dos limites da cidade, um artigo custava a metade do preço e assim, o pobre, para se livrar do pagamento da taxa era forçado a ir efetuar suas compras muito além dos limites urbanos.

Chegou o dia em que, numa das portas de Nápoles, uma jovem mulher, com o filhinho nos braços, teve a infelicidade de despertar suspeitas dos guardas.

A criança foi-lhe arrancada brutalmente.

Em seguida, sem a menor decência, a infeliz mulher foi revistada, maltratada e levada para a prisão por Giovanni Ferizzia, acusada de tentar contrabandear ligeira quantidade de trigo e milho. O nome da infeliz era Bernardina d'Amalfi (Nome de solteira: Bernardina Pisa- retrato ao lado). Quando a noticia chegou a seu esposo, um jovem peixeiro, que lutava contra a mais completa pobreza, correu ele à prisão, tentando, em vão, libertar a sua esposa. Porém Ferizzia condenara Bernardina a uma multa de 100 coroas e, para consegui-las, seu marido foi forçado a vender tudo quanto possuía e, ainda, a mendigar em plena rua.

Levou oito dias, angustiado, sofrendo horrores, num desespero crescente, para conseguir reunir o necessário para pagamento da multa exorbitante. Enfim, pode ir buscar sua jovem e amada esposa e ao se ver na rua, declarou:

- Juro pela Madona del Carmine que, tão certo como meu nome ser Masaniello d'Amalfi, hei de vingar-me desses ladrões!

Com sua mãe e irmã, Masaniello viveu numa casa pequenina, numa esquina da Piazza Mercato, (Piazza ChiesaVecchio Mercato ) uma das mais velhas de Nápoles e que ainda se conserva intacta. Masaniello tinha todos as características do tipo clássico do Napolitano. Cabeça cheia de imaginação e espantosamente loquaz, fisicamente forte e ágil, era o líder do grupo de homens ainda jovens, seus companheiros de trabalho e de diversões e que com ele se entregavam às provas esportivas, que cada ano eram realizadas na Piazza Mercato.

Irritado com a injustiça das autoridades, Masaniello começou a encorajar seus amigos à revolta contra a taxação, tratando de espalhar essa palavra de ordem por todas as ruas vizinhas:

- "Nenhuma taxação sem representação!"

Alguns dos rebeldes eram tão jovens, que não podiam ser presos nem punidos, porem eram bastante fortes para espalhar as tentadoras palavras, que sempre encontravam silenciosa resposta no coração da população sofredora.

A esse tempo (1647), recente ordem do vice-rei, provocara nova taxa. Desta vez a ganância do Governo se voltava para as frutas, única coisa até então livre de taxas e que constituía o principal alimento dos Napolitanos.

O clamor foi terrível! Os jardineiros de Pozzuoli despejaram os cestos para não pagar a taxa; carroções de frutas eram abandonados, fora dos muros de Nápoles pelos vendedores, que se negavam a pagar a taxa. A imensa Piazza, repleta de povo, vibrava toda com os gritos de protesto e desespero. Discussões e querelas surgiram, mais ou menos graves, nas proximidades da casa do governo.

Poucos dias antes e pela mesma razão, ocorrera uma revolução em Palermo e as autoridades de Nápoles, receando que os Napolitanos seguissem esse exemplo, mandaram dobrar as guardas e só então enviaram à Piazza Mercato o representante do povo, esperando que com sua presença e o aparato militar, poderia impor obediência e respeito.

De fato, imediatamente, fiado na força armada, ditou sentença contra um vendedor, que lançara fora um cesto com figos frescos.

O homem explicou que assim fizera porque só o pagamento da taxa era mais elevado do que o preço que pagara pelos figos e que nessas condições não podia obter nenhum lucro. E, num repente gritou: "Pois bem, já que não posso ter lucro, prefiro dar os figos de graça, ao povo! " E juntando o gesto à palavra, lançou o cesto para a multidão, gritando:

"Venham, rapazes - fiquem com isto! "

Um dos rapazes - e o mais revoltado - era Masaniello, que, apanhando o cesto de figos frescos, atirou-o contra o rosto do representante do povo, exclamando:

"Não pagaremos taxas, não seremos castigados! Longa vida ao rei de Espanha! Abaixo o Governo!"

A cena que se seguiu, dispensa descrição. A casa do governo foi atacada por todos os lados, os guardas fugiram ou foram maltratados e as autoridades atacadas a cestos de frutas e pedradas, sendo forçadas a fugir.

O edifício continha formidável lote de mercadorias, extorquidas ao povo, à guisa de taxas, em substituição do dinheiro. Tudo foi incendiado. Esse fato ocorreu no dia 7 de Julho de 1647.

Da pequenina janela de seu modesto quarto, num primeiro andar, dominando a Piazza, Bernardina, esposa de Masaniello, com o coração palpitante de receio e de ansiedade, viu o marido trepar a uma plataforma de madeira, depressa improvisada, erguendo-se, dominador, entre os amotinados. Dali dirigiu-se ao povo enfurecido. Tinha não apenas a voz, mas também uma poderosa retórica de orador nato, coisa que invariavelmente inflama qualquer assistência. Desde esse dia, aquela tosca plataforma passou a ser o local de onde dirigiu ao populacho todos os seus discursos.

Enquanto o pandemônio crescia e se alastrava, o vice-rei de Nápoles, duque D'Arcos, recebia um mensageiro com as novas da insurreição e o alarmante detalhe de que, dirigida por um jovem chefe, grande multidão se aproximava, vinda da Piazza. O vice-rei teve apenas tempo para compreender a gravidade de sua situação, pois já a grande massa de povo gritava sob suas janelas, intimando-o a Ouvi-la.

O duque era homem de longa experiência. Frio, calculista e astucioso, tinha sempre a melhor atitude para enfrentar seus oponentes com um sorriso amistoso, pronto a transformar a mansidão em violência e pelos meios mais traiçoeiros, quando a ocasião se apresentava.

Foi, portanto, aparentemente, com a melhor boa vontade que apareceu à sacada do palácio e prometeu conceder ao povo tudo quanto este exigia. Perdeu, entretanto sua aparente frieza, quando viu à insuficiente guarda palaciana retroceder, abrindo passagem para uma verdadeira torrente humana, que avançava para a porta principal. Tentava obter silencio, necessário a que fossem ouvidas suas ordens enérgicas, quando por uma janela Masaniello saltou a seu lado. Ao mesmo tempo, outras janelas foram abertas e a ralé penetrou, em ondas irresistíveis, no palácio. Dali os vanguardeiros fizeram sinais à multidão que penetrara no pátio e imediatamente começou uma terrível destruição. Moveis finos eram atirados pela janela ou sobre o terraço. Confortáveis poltronas, telas admiráveis, ornamentos preciosos, cortinas e reposteiros, espelhos de Veneza, tudo foi destruído e lançado às pedras do pátio e, a seguir, reunido numa imensa fogueira.

E, como se tais atos nada tivessem de ofensivo ao rei, a multidão, enquanto destruía e incendiava, não cessava de gritar:

"Longa vida ao rei de Espanha! Abaixo o mau governo!"

Aguardavam todos que, a qualquer momento, o corpo ensangüentado do vice-rei também fosse lançado pela janela, porem tal não aconteceu. Pálido, mas sem um arranhão, apareceu ele em plena rua, entre um coro de risadas e zombarias. Logo foi cercado pelos revoltados que empunhavam armas, porem após ligeira hesitação, não o tocaram. Essa hesitação foi sua salvação.

Porem o infeliz, nessa altura, cometeu gravíssimo erro, atirando mãos cheias de moedas de ouro à multidão. O efeito não foi, justamente, aquele que esperara porque alguns dos amotinados, após apanhar as moedas, as atiravam de volta ao vice-rei. A situação parecia desesperada, porem mesmo assim conseguiu refugiar-se numa carruagem e, penosamente, receando ser assassinado a todo momento, atingiu a porta de S. Francisco, oposta ao Palácio. Ali, finalmente, sentiu-se salvo.

Então notou que muitos de seus mais íntimos amigos, haviam tido a presença de espírito de livrar-se de seus riquíssimos vestuários e, disfarçados em rebeldes, o haviam protegido durante a curta porém difícil jornada através da Piazza.

Após esse incidente, o povo pareceu disposto a retirar-se, em calma, quando, repentinamente, um tiro de arcabuz ecoou, vindo do Palácio e um homem do povo tombou morto. O efeito foi desastroso. O corpo foi içado para uma carruagem e transportado através de Nápoles. Esse espetáculo dramático inflamou o povo que se entregou a terríveis desmandos.

                                                                                       ***

As igrejas sempre tinham sido consideradas como santuários inatacáveis, servindo, assim, de proteção para todos os perseguidos. Ora, justamente na igreja de Santa Maria del Carmine, estava refugiado o famoso bandido Perrone, que tinha um espantoso recorde de crimes, quando a serviço do odiado duque de Maddaloni. Ali veio a saber do fantástico plano de Masaniello para salvar Nápoles do governo inquisitorial e, ainda, sua declaração de que, se tivesse três bons homens tão resolutos como ele próprio, dominaria a cidade inteira. Muitos tinham erguido os ombros ou simplesmente achado graça na afirmativa, porem Perrone, imediatamente ofereceu seus préstimos.

Masaniello, como já dissemos, era muito jovem e, portanto, sem experiência bastante para saber que a natureza humana não muda. Assim,  aceitou a oferta, sem imaginar que apenas um homem honesto é capaz de lutar por um principio honesto, continuando coerente e correto até o fim. Logo ao primeiro sinal de enfraquecimento da lei e da ordem, Perrone deixou seu refugio e juntou-se a Masaniello. Outro companheiro, que veio a ser o responsável direto pelo movimento inteiro, foi Julius Genovino, um sacerdote octogenário e ainda um tipo extraordinário, cuja historia formaria um livro interessantíssimo; era homem de vastos conhecimentos e tão astucioso como uma raposa. No passado, tambem se rebelara contra o jugo espanhol, tendo sido preso, condenado e aprisionado. Na verdade toda sua vida fora tumultuosa e pontilhada de lutas. Quando se viu novamente em liberdade, fez-se sacerdote , aparentemente todo dedicado a teologia, porem, na realidade, apenas esperando uma oportunidade para tirar vingança das afrontas e maus tratos sofridos. Essa oportunidade chegava enfim e não teve dificuldade em avaliar toda a dinâmica energia do jovem Masaniello.

O povo, encolerizado, fora simultaneamente levado por duas ondas diferentes. Uma fora a pronta ação de Masanielo, eleito "capitão do povo". Outra, fora o efeito da magistral intriga, logo concebida e desenvolvida pelo inesgotável ódio do velho Genovino. Tratara de espalhar o boato de que o imperador Carlos V garantira uma Constituição para a cidade de Nápoles, exonerando-a de todas as taxas, ou obrigações, fossem elas quais fossem. Esse documento, denominado "Privilégio", segundo se supõe, tinha sido escondido pelo Vice-Rei, afim de proteger suas explorações.

Num abrir e fechar de olhos todos acreditaram na existência desse documento e em poucas horas trezentos mil Napolitanos clamavam pela entrega do "Privilégio",

O vice-rei, a esse tempo, conseguira transportar-se para Castel Nuovo; formidável fortaleza no outro extremo da cidade, enfrentando o mar. Quando lhe falaram na exigência que o povo fazia do "Privilégio", respondeu, naturalmente, que não sabia nada a esse respeito.

De fato, o "Privilégio", sendo pura invenção do hábil intrigante, não podia existir! Compreendendo a situação, declarou ainda que o documento devia ser fruto, simplesmente, da fértil imaginação de Genovino, que, astucioso e cruel, isso fizera justamente por saber que qualquer negativa, por parte das autoridade, viria aumentar a fúria dos Napolitanos.

Genovino, porem, prosseguia em sua intriga e agora afirmava que, no passado, tivera oportunidade de ler o famoso documento, recordando-se perfeitamente de seus termos.

O vice-rei tentou livrar-se da difícil posição, encarregando o bom cardeal Fi omarino de exibir ao povo um certo documento que afirmou constituír sua "carta". O velho cardeal dirigiu-se à Piazza Mercato e ali o documento foi lido. Sem dúvida o malicioso Genovivo (Julius) imediatamente indicou que tal não era o "Privilégio", porque imediatamente se levantou grande clamor de protesto.

***

Masaniello não era homem para ficar de braços cruzados, ouvindo a leitura de documentos.

Acreditava na ação e como "capitão do povo", montado em soberbo cavalo, acompanhado por milhares de seus companheiros, começou por mandar abrir as portas das prisões, destruindo todos os documentos, processos, acusações e o mais que lhe caiu em mãos. Seu exército crescia incessantemente, tornando-se mais e mais ameaçador. Apesar disso deu ordem para que na manhã seguinte, todos os homens, mulheres ou crianças estivessem armados até os dentes.

Todas as lojas de armas foram saqueadas, surgindo ao milhares alabardas (*), facões, espadas e também centenas de barris de pólvora. Uma loja, que se recusara a entregar suas mercadorias bélicas foi imediatamente incendiada e, em conseqüência, formidável estoque de pólvora explodiu, destruindo dezenas de casas e matando sessenta pessoas. Os arcabuzes foram recolhidos às centenas. Ninguém seria capaz de imaginar, um dia antes, que na cidade existisse um tal arsenal bélico!

Conforme Masaniello prometera, a noite que dividiu os dias 7 e 8 de julho fora suficiente para equipar um formidável exército.

Porém o vice-rei decidira responder á ação violenta com ação ainda mais violenta e, secretamente, chamara 500 mercenários Germânicos de Pozzuoli, poucas milhas agastada de Nápoles. Masaniello teve noticia dessa manobra e resolveu agir depressa, encaminhando-se ao encontro dos mercenários. Uma hora depois, regressava à cidade trazendo mais 500 rifles, arcabuzes e também tambores e trombetas, além de 500 prisioneiros amarrados.

Outro grande acontecimento foi o do preço do pão, que caiu à metade do custo usual, enquanto sua qualidade se elevava. O mesmo aconteceu com as demais mercadorias.

Todos os trabalhos de Masaniello eram terminados num tempo surpreendentemente curto. Os historiadores são unânimes em confessar seu espanto pela vertiginosa rapidez com que ele lutava e governava ao mesmo tempo.

Vinte e quatro horas tinham penosamente decorrido, desde que Masaniello se elevara da humilde posição de pobre peixeiro à de senhor de Nápoles, chefe de poderoso exercito e ídolo da maior cidade da Itália! Foi, porem, o primeiro a compreender sua força e usou-a para restabelecer a disciplina entre esses ásperos espíritos que constituíam seu exército. Assim, tratou de explicar-lhes que a revolução fora feita contra os ladrões do governo, que sustentavam sua insaciável ganância com o sangue do pobre povo. Estes seriam punidos e seus atos revogados. Porém os napolitanos não desejavam ser acusados, por sua vez, de bárbaros e aproveitadores.

Por isso, acrescentava sempre em seus discursos: "Lembrai-vos, meus amigos! Deveis ser severos, porém justos!"

A seguir tratou de verificar os prédios que haviam sofrido com a revolução para que seus proprietários fossem indenizados e puniu com a pena de morte todo aquele que se apoderou do alheio, mesmo que fosse coisa insignificante.

Estas não são palavras vãs, pois a integridade de Masaniello pode ser provada por inúmeros exemplos.

O primeiro a sofrer a vingança de Masaniello foi Ferizzia, que lhe extorquira 100 coroas pela liberdade de sua amada Bernardina. Sabendo o que lhe estava reservado, o miserável tratou de desaparecer, porem não pode levar consigo o formidável estoque de mercadoria, ilicitamente confiscadas aos pobres e acumulada durante vários anos. Era tamanha a quantidade, que uma pequena cidade poderia ser com ela sustentada durante um ano! Tudo foi incendiado, ficando reduzido a cinzas em poucas horas.

A mesma cena foi repetida com as propriedades de outros muitos cobradores de taxas. Além do mais, as buscas em breve Masaniello podia contar com inúmeras peças de artilharia, fortificando assim seu exército e a defesa de Nápoles.

Outra novidade, criada pelo "Capitão do Povo"foram os Batalhões de mulheres perfeitamente armados e equipados e dirigidos por uma "generala", jovem amazona de vinte e cinco anos e mulher de estonteante beleza.

A esse tempo, inúmeros nobres tratavam de encontrar a famosa "carta" de Carlos V; para o povo, impaciente de providencias por conta própria, criando com isso terríveis prejuízos à administração, além de grandes complicações. Finalmente, o cardeal apresentou nova "carta"contendo todas as concessões, solicitadas pelo povo. Aquele era o "ramo de oliveira"preparado pelo astucioso Vice-rei.

O documento foi exibido a Genovino, que, apos estudá-lo durante toda uma longa noite, aceitou-o como o "autentico"Privilégio. Tal fraude, não menos do que as ações drásticas de Masaniello, contribuía para a abolição das taxas.

Toda a imensa Piazza Mercato se encheu de povo, que não continha sua alegria, e o mesmo ocorreu na visinha praça del Carmine. A igreja ficou, assim, totalmente cheia. Ali, vestindo-se com toda a pompa e, tendo a companhia aparatosa do clero-menor, o cardeal leu os termos da "carta". Masaniello, vestido simplesmente como um pobre peixeiro, sentiu o maior orgulho ao ver o resultado de seu trabalho, refletido na expressão feliz de todos os rostos. Repentinamente, alguns homens de armas abriram caminho entre a multidão. Perrone, o bandido, explicou que eram os homens escolhidos para dar guarda à pessoa de Masaniello. Nessas condições, este último recebeu-os amistosamente, porem quando percebeu que outros 500 homens, bem armados e bem montados se aproximavam da Piazza, ordenou a Perrone que corresse e providenciasse para que se mantivessem fora da cidade, até que tudo estivesse terminado. Nesse mesmo instante, de pouca distancia, sete arcabuzes foram apontados e sete tiros ecoaram pelo santuário. O pandemônio foi indescritível. Os bancos foram derrubados pela multidão, que entrou a destruir tudo que estivesse ao seu alcance. Masaniello, porem, não sofrera sequer um arranhão. Logo que a calma pode ser restabelecida por sua autoridade, improvisou um emocionante discurso, no qual declarou que "a Santa Madonna del Carmine o havia preservado para salvação do povo de Nápoles, do qual continuaria sendo o chefe e o servo".

De fato, foi por verdadeiro milagre que, de uma tão escassa distância ele pode se livrar das balas. A religiosa credulidade da população imediatamente classificou Masaniello como "um super-homem, protegido pelo Céu".

A tentativa de assassinato fora organizada por Perrone, segundo instruções do duque de Maddaloni. Os 500 bandidos estavam destinados a apanhar o povo de surpresa e desarmado, massacrando-o impiedosamente e retomando o poder dos insurretos.

Perrone, preso e torturado, tudo confessou a Masaniello, revelando que a Piazza Mercato e a Igreja de Santa Maria del Carmine estavam totalmente minadas com barris de pólvora, num total de sete toneladas. As mechas tinham sido cuidadosamente preparadas e homens do duque, sob suas ordens, prontos para acendê-las. Segundo o plano infernal, cem mil pessoas seriam destruídas num abrir e fechar de olhos.

Dos 500 bandidos apenas um escapou. O resto foi executado, juntamente com seus chefes, na Piazza.

Ao mesmo tempo, após a justiça do povo se ver satisfeita, a população de Nápoles não escondeu sua alegria com a noticia de que a paz fora feita com o Vice-rei. Ficara decidido que Masaniello deveria para o Vice-rei com uma visita-oficial, com o objetivo de alcançar a ratificação do "Privilégio". Imediatamente se declarou pronto a ir, porem recusou descartar-se de suas roupas de peixeiro. Em todos os seus discursos, sempre repetira que "tendo nascido pobre, pobre morreria." Orgulhoso de sua pobreza, não julgava ter que trocar de roupa para falar com quem fosse. Foi somente atendendo a um enérgico apelo do Cardeal que consentiu em vestir um vistoso uniforme de "capitão do povo."

O cortejo que se dirigiu ao palacio, foi dos mais imponentes. Estandartes e tapeçarias pendiam de todas as janelas. Masaniello estava ricamente vestido com um uniforme de lamé prateado. A cabeça ostentava chapelão de abas largas e enfeitado com plumas de avestruz.

Logo após seguia Genovino, em "berlinda".

O cortejo foi recebido com todas as mostras de agrado pelo astucioso Vice-rei, que pretendia tão somente ganhar tempo. Este, de fato, veio em seu auxilio, pois, em pleno palácio e com surpresa geral das autoridade e grande dor de seus partidários, Masniello foi repentinamente atacado de loucura. Não a loucura furiosa; porem agiu como um homem a quem a razão fugira, pronunciando palavras sem o menor sentido e portando-se, em conseqüência com a maior inconveniência.

Era a oportunidade tão ansiosamente aguardada pelo duque de Arcos, que, imediatamente anulou todos os atos do ídolo popular, alegando que tinham sido realizados ou mesmo impostos por um demente. Com isso e com a distribuição farta de favores, pode conseguir que os amigos de Masaniello, mesmo os mais dedicados até então, abandonasse o "Capitão do Povo".

O povo é o mesmo, em toda parte. Depressa aplaude os gestos de heroismo. Porem mais depressa ainda os esquece... No dia 16 de julho, quando Masaniello, ao qual a razão por vezes parecia voltar, límpida, pediu a seu agora diminuto circulo de amigos que o protegessem contra as perseguições do Vice-rei, foi conduzido por aqueles mesmos, que uma semana antes o aplaudiam, para a igreja del Carmine e alí morto a pedradas por quatro bandidos, pagos pelo duque de Arcos.

O corpo foi escondido, durante tres dias, receando o Governo que a morte do herói provocasse nova revolta.

Porem a noticia transpareceu, como não podia deixar de acontecer, e o povo recebeu o fato com revoltante frieza. Mas, passados mais alguns dias, arrependido de sua ingratidão, dedicou a Masaniello magníficos funerais, sendo seu corpo enterrado na própria igreja del Carmine.


Nota da redação do almanaque.info:

Lazzaroni: Ou Lazarone, nome com que se designam, em Nápoles, os homens das ultimas classes populares. Por extensão- madraço, mendigo.

alabarda: Arma antiga que constava de longa haste de madeira, terminando em ferro largo e pontiagudo, atravessado por outro em forma de meia-lua.

Masaniello (Tomás Aniello) (1620-1647) - Conforme registros enciclopédicos, Masaniello colocou-se a frente dos Napolitanos revoltados contra a dureza e rapacidade do domínio espanhol e obrigou os opressores a aceitar as suas condições. Mas, quer fosse por efeito do esgotamento, quer fosse pelo veneno colocado numa bebida, foi subitamente atacado de loucura. Aproveitaram o ensejo para o matarem a tiros de arcabuz, no claustro do Carmelo. A memória do caudilho mantém-se na tradição popular napolitana.


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