ALMANAQUE "PRIDIE KALENDAS"

 

 
 
 
 
 
 
 
 
             APRESENTA

 

CINCO BANDEIRAS ESTÃO FALTANDO

 

CONTO ORIGINAL DE: CARL SAGUNT

 

Quando Archie Barrington, correspondente especial dum jornal de Londres, entrou no seu clube, à procura duma palestra amiga, a primeira coisa que viu foi a cara severa do inspetor de detetives de Scotland Yard, Mc Nab, curvada sobre um retalho de papel. Tão atento estava o detetive que não se moveu sequer quando Barrington se postou ao seu lado, espiando uma fotografia que estava sobre a mesa dele. O que ele viu foi uma linda pequena numa ousada roupa de banho, ao lado dum homem de agradável aspecto, de cerca de trinta anos, de camiseta e calça de flanela. Ambos pareciam felizes. 

- A ex-miss Mc Nab e seu jovem companheiro em viagem de lua de mel, não é mesmo? – disse Barrington. 

Mc Nab correu os olhos em torno com um resmungo de raiva. 

- Lua de mel um diabo! Disse ele. Depois: - Oh, é você, Archie! Que é que está fazendo em Londres? 

Archie examinou a fotografia. – Por que é que todas as pequenas realmente bonitas sempre estão onde eu não estou? – suspirou ele. – Quem é ela, Mc Nab? Uma das agradecidas vitima do crime, que você salvou de serem raptadas, ao que suponho... 

- Oh, deixe de dizer asneiras, Archie! – interrompeu o inspetor. – Eu nem sequer olhei para esta pequena. É o homem que estou procurando. Que patife audacioso! Foge da prisão e tem o desplante de me mandar esta fotografia, completada com a letra e as impressões digitais. 

- Estúpido é que eu o chamo – disse Archie. – Depois disto, você não pode deixar de pôr-lhe as garras em cima, outra vez. 

-Oh, naturalmente era o que você faria, não é mesmo? Mas os homens com que temos de haver-nos são muito mais inteligentes do que os leitores de historias de seu jornal. Bem, vá apanhar o sujeito! Além da distração, pode ganhar quinhentas libras de recompensa. 

Olhe só nas costas da foto. 

Archie assim fez. Havia apenas algumas palavras escritas. Diziam: “Com as saudações cordiais, ao meu caro amigo, Inspetor Mc Nab – C. R. Rowlinson”. 

- O que! – exclamou ele. – Este camarada simpático é o maior ladrão da Europa? O homem que roubou o colar de perolas da Casa da Opera? 

- Ele mesmo, diabos o levem! 

- Que burro! Entregar-se à prisão, simplesmente pelo prazer de bulir com você! 

- Ma ele não se entregou! É isso que me dá tanta raiva. Esta fotografia foi examinada por todos os peritos da Yard e não foram capazes de descobrir um só indicio para tocar adiante. 

Há uma quantidade de indícios sobre a identidade do remetente, é claro. É a cara dele, perfeitamente. Não há duvida também quanto à sua caligrafia. São as suas impressões digitais – nós as conhecemos muito bem na Yard. Nada mais...

- Nenhum carimbo do correio?

- A foto foi postada há três dias, às 7 da manhã, numa caixa do correio no West End, por um de sua quadrilha, creio.

- Oh, compreendo! Mas, de qualquer modo, deve haver alguma coisa na foto que de alguma indicação. Se você não puder descobrir com seus raios X, talvez possa ser achada a olho nu. Pode estar na própria fotografia.

- Procure só, rapazinho - disse o Inspetor, agitando a fotografia sobre a mesa.

- Se você pensa que tem mais cérebro do que os melhores especialistas da Yard juntos, pode olhá-la como quiser. Mas, por favor, não me diga que havia o nome do navio escrito naquele salva-vidas entre os dois e que foi cuidadosamente raspado.

Até uma galinha cega não poderia deixar de notar isto.

Archie deixou a fotografia na mesa, diante dele. O homem e a rapariga estavam de pé no que Barrington viu que era parte da ponte dum navio. Havia um compartimento de madeira, com uma grade de ferro no alto.

Na parede, entre as duas pessoas, pendia um salva-vidas comum, porém o nome do navio e do porto haviam sido cuidadosamente raspados.

Nada mais se podia ver, senão uma espécie de armário aberto, com três filas de escaninhos como de pombais, pregados na parede. Tal fotografia quase que poderia ter sido tomada a bordo de qualquer navio.

De repente Archie disse:

- Você me empresta sua alente por um instante, faz favor?

Mc Nab tirou esse objeto importantíssimo do bolso do colete. - Não adianta muito aumentar nada, disse ele. - Esta peste recusa-se simplesmente a revelar seja o que for, mesmo sob a mais poderosa lente.

Archie tomou a lente e perscrutou minuciosamente um ponto da fotografia. Depois tirou o caderno de notas e escreveu nele alguns números.

- Já achou uma chave? - perguntou o inspetor.

- Eu sabia que ele estava se traindo com esta fotografia! Ele não prestou atenção ao pombal do armario e o mesmo fez você.

- Não, eu não. Mas que é que adianta isto?

- Cinco dos orifícios estão vazios! - E que é que tem que estejam? Para que serve o armário? - Você não sabe? É nele que se guardam as bandeiras de sinais. Cinco bandeiras estão faltando! - E como o inspetor olhasse para ele sem entender: - Agora vá dizer aos rapazes da Yard que tenham aquele cheque pronto. Espero que não gaste uma hora para lhe dizer onde você pode encontrar este homem!

***

Mas não foi senão três horas depois que Barrington entrou no escritório do inspetor.

- Sinto muito fazer você e essa gente toda esperar, meu velho - disse ele animadamente - mas você vai apanhar seu homem direitinho. Mande um telegrama à policia de Port Said para detê-lo no navio japonês Nagasaki Marú, que deve chegar lá amanhã, depois de meio dia.

O inspetor Mc Nab caiu para trás na cadeira, boquiaberto.

- Ele saiu no dia 17 deste mes, de Rotterdam, continuou Archie. - A fotografia foi tomada na manhã de 24 e postada na tarde do mesmo dia em Marselha.

Mande uma palavra aos rapazes de Port Saide e eles terão Rowlinson sob a chave com a maior facilidade.

Mc Nab recuperou a fala. - Bem, se você puder provar isso...

- Naturalmente que eu posso! Depois que descobri que faltavam cinco bandeiras no armário foi fácil. Há uma bandeira para cada letra do A. B. C. você sabe.

Quando eu examinei o armário, com sua lente, descobri que algumas das bandeiras dos escaninhos estavam faltando.

Cinco ao todo. Isto me deu uma idéia. Anotei a posição dos escaninhos vazios e fui procurar um amigo meu que é comandante da marinha mercante, aposentado. Ele me disse imediatamente quais as letras correspondentes às bandeiras que faltavam. Aqui estão elas:

- Pouco me adiantam - disse o inspetor impaciente.- Espere um minuto. Garanto-lhe que há muito o que tirar daqui!... Na marinha mercante, nenhum sinal consiste de mais de quatro bandeiras. Aqui temos cinco. Mas uma delas era uma amarela que corresponde à letra "Q", o que equivale a "quarentena" e é hasteada quando um navio entra no porto, para avisar às visitas que não venham para bordo antes dos oficiais da  saúde publica terem acabado.

Como a bandeira "Q" estava em uso na hora de tirarem a fotografia, é obvio que ela foi tirada na hora em que o navio estava entrando num porto.

Bem, sendo assim, as quatro restantes bandeiras deviam formar o sinal do nome do navio, que é sempre hasteado ao mesmo gtempo que a bandeira de quarentena.

Este sinal era composto das letras G-M-O-S. A coisa que eu tinha a fazer em seguida era resolver este problema. Fui a uma biblioteca  e pedi o Livro de Sinais Internacionais, onde se acham os nomes de todos os navios do mundo com as quatro letras de seus sinais acrescentadas a eles.

Dai extrai todos os nomes de navios cujos sinais se compunham das letras G-M-O-S. Deve haver bastantes.

- Vinte e quatro, para falar com exatidão. E o nome do navio onde a foto de Rowlinson e da moça tinha sido tirada tinha de estar entre esses vinte-e-quatro.

Era apenas questão de perseverança e do Registro do Lloyd. O registro diz praticamente tudo o que se precisa saber a respeito de qualquer navio do mundo. Então fiz algumas eliminações obvias. Enquanto confrontava os nomes, muitos deles foram logo postos á margem.

Rowlinson não podia, provavelmente, ser encontrado num navio do cabo submarino dinamarquês, nem num de petróleo; ele não podia provavelmente ter embarcado num desses. Finalmente, o numero dos navios nos quais ele podia ser encontrado acabou reduzido a dois: o Cidade de Aberdeen e o Nagasaki Marú. Ambos haviam deixado a Europa na ocasião da fuga de Rowlinson.

Ambos haviam escalado num porto a tempo de mandar a fotografia. O Nagasaki Marú tocou em Marselha no dia 24; o Cidade de Aberdeen em Gibraltar no dia 25.

Não acreditei que Rowlinson tivesse embarcado no Cidade de Aberdeen; ele se sentiria muito mais seguro num navio que não fosse inglês. Ma quis certificar-me pela noticias do tempo nos dois portos, nos dias em questão.

Bem, choveu a cântaros em Gibraltar, no dia 25 enquanto o tempo estava limpo e quente em Marselha, no dia 24.

E a linda pequena na fotografia estava de maillot e Rowlinson em camiseta! Isto liquidava a questão!...


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