ALMANAQUE  INFO APRESENTA

 

O JORNAL MAIS ANTIGO DO BRASIL EM CIRCULAÇÃO- NÃO CRONOLOGICAMENTE

 Estado de S. Paulo foi fundado, em 4 de janeiro de 1875, inspirando-se nos ideais de um grupo de republicanos . Na época, o jornal se chamava A Província de São Paulo

Preliminarmente, para uma postura abrangente diante de tal acontecimento, vamos levantar os fatos históricos, na visão de três dos mais renomados historiadores brasileiros
 

FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Por: Nelson Werneck Sodré

Livraria José Olympio Editora- 1944

Pagina 300,301 e 302

 

A receita pública crescera, de pouco mais de dezesseis mil contos, em 1840, para quase cinqüenta mil, em 1862.

Ultrapassaria a casa dos cem mil, depois de 1872. Em 1867, existiam pouco mais de seiscentos quilômetros de estradas de ferro. O surto ferroviário era intenso, porém, porque até 1870 esse número já passara a quase mil. As linhas telegráficas, em 1873, mal chegavam a três mil e quinhentos quilômetros. Dois anos depois ultrapassariam cinco mil, Inaugurar-se-ia o cabo submarino para a Europa. Em 1870, saiam, por Santos e Rio mais de duzentos milhões de quilos de café.

Esse vulto de produção agrária, ante a precariedade do industrialismo e das tentativas de implantação de meios de transporte correspondentes mostra como a velha estrutura estava ainda sólida e resistia, pela inércia, ao impulso novo que buscava alterar a fisionomia econômica do país.

O número de escravos cai, de dois milhões, em 1840, a menos de um milhão e setecentos mil, em 1871, quando passa a Lei do Ventre Livre. O desfalque de trezentos mil negros destinados ao trabalho da lavoura não de ser atribuído, é claro à assimilação deles ao rudimentar aparelhamento industrial e de transportes. Não tinham os elementos escravos capacidade de adaptação para transitar, muito ràpidamente, de um sistema a outro.O operário era recrutado entre os elementos oriundos da massa flutuante, já polidos pela miscigenação. Eram mestiços, em sua grande parte, a que a miscigenação havia propiciado aptidão para passar da disponibilidade ao trabalho remunerado. O decréscimo do número de escravos se explica, antes pela redução normal, proveniente da mortalidade e da alforria, uma vez esgotadas as fontes de novos suprimentos.

Os índices de mudança são, ainda, por esse tempo, muito reduzidos, e aqui apontados apenas como sinais originários da transformação que se vai operar, bem mais adiante, mas que se processa demoradamente. A massa maior de escravos se condensava na região polarizada pela capital política do país, perto de escoamento da produção agrária cafeeira. À proporção que a lavoura do café fosse caminhando, no sentido do território da província de São Paulo, de sorte a buscar, em Santos, o seu novo porto de saída, iria alterando essencialmente as suas bases. Denuncia-se, no campo político, pelo crescimento do grupo liberal, que não deve ser confundido com o partido do mesmo nome. O revezamento dos partidos, liberal e conservador, com que o segundo império, criado o figurino, disfarçava, de uma maneira apenas aparente, a intimidade do organismo nacional, incapaz de suportar, em realidade, uma divisão nítida de idéias, de sorte a torná-la fixada em partidos antagônicos, nunca passou de uma ilusão, visto como ambos eram, apenas, "agregados de clãs organizados para a exploração em comum das vantagens do poder". Ao contrário do que seria lógico se supor, o grupo liberal não se constituiu em torno do partido que carregava esse nome, mas em torno de todos os partidos, os tradicionais, como os novos, e as combinações que, em todo o decorrer da agitação política do segundo império, foram se formando sob o critério das circunstâncias. Era, na verdade, um grupo diminuto, sem grande expressão, porque arrimado, apenas, em idéias, sem a força impositiva de uma arregimentação correspondente, divorciado da grande lavoura, que era o reduto eleitoral quase único, apenas apoiado, sem compromissos, pelos elementos urbanos da massa flutuante, em transito para a constituição de uma classe média organizada e com função definida no organismo nacional.

As transformações dos meios de produção, o esboço de um operariado urbano, conseqüente à industrialização embrionária, estão em ligação estreita, entretanto, quer com as conseqüências da supressão do tráfico, quer com o aumento crescente, em tonelagem e em valor, da produção cafeeira, - aumento que acabará por impor a sua própria transformação, - de sorte a estabelecer a continuidade com os fatores antigos que vinham alterando a fisionomia social e econômica do país e de cujos sinais mais vivos e importantes demos uma súmula no capitulo anterior.


 

HISTÓRIA DO BRASIL

Por: Helio Vianna

Edições Melhoramentos - 1961

2 - O advento da República a) A propaganda republicana (Pág. 217 e 218)

 

Apesar da ampla liberdade de opinião vigente no Segundo Reinado, até 1870 jamais se havia cogitado, no país, da criação de um Partido Republicano. Diminuta era a repercussão alcançada, por exemplo, pela pregação do agitador Antonio Borges da Fonseca, que entre 1830 e 1855 manteve cinco pequenos jornais intitulados O Repúblico (2).

Somente no ano da terminação da Guerra do Paraguai alguns liberais, dissidentes da agremiação a que pertenciam, aliados a alguns jovens que ainda não haviam participado de atividades políticas, assinaram, a 3 de dezembro de 1870, um manifesto republicano, fundando um clube e um jornal com essa tendência política. Entre os signatários, incluia-se Saldanha Marinho, ex-deputado e presidente de províncias, Aristides Lobo, Quintino Bocaiúva, Lopes Trovão, Francisco Rangel Pestana e Salvador de Mendonça, este último o diretor do novo jornal A República, que durou até 1874.

Obtendo o novo partido algumas adesões, nas províncias, notadamente na de São Paulo, nesta se realizaram, em 1873, duas convenções, uma na própria capital, outra em Itu. Distinguiram-se, aí, como republicanos, os advogados Francisco Glicério, Américo Brasiliense, Bernardino de Campos,  Prudente José de Morais Barros e Manuel Ferraz de Campos Sales.

Em Minas Gerais, foram republicanos, entre outros, Antonio Olinto dos Santos Pires e João Pinheiro; no Rio Grande do Sul, Barros Casal, Júlio de Castilhos e Assis Brasil; em Pernambuco, Martins Júnior, na Bahia, Virgilio Climaco Damásio.

No Rio de Janeiro, em períodos de maior ou menor atividade, salientaram-se Quintino Bocaiuva, Silva Jardim, Sampaio Ferraz e Lopes Trovão, tornando-se o segundo, mais tarde, ativo propagandista, inclusive em viagens pelas províncias.

Na Escola Militar, obteve adeptos entre seus discípulos o professor positivista e republicano Tenente-Coronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães.

O Apostolado Positivista, núcleo dos partidários da filosofia de Augusto Comte e da Religião da Humanidade, por ele criada, também aconselhava, aos seus poucos aderentes, a instauração de uma ditadura republicana. Eram seus principais orientadores Miguel Lemos e Teixeira Mendes.

Como resultado da propaganda, em 1884 foram eleitos para a Câmara dos Deputados três republicanos, inclusive os futuros presidentes da República Prudente de Morais e Campos Sales. Na legislatura seguinte apenas um conseguiu ser eleito. Até 15 de novembro de 1889 haviam-se fundado 74 jornais e 237 clubes republicanos em todo o Brasil. Localizavam-se, predominantemente, no Sul do país. Convém notar que muitos tiveram existência efêmera (3).

Nesse ano, em Congresso Republicano reunido no Rio de Janeiro, foi o jornalista Quintino Bocaiúva escolhido chefe do partido. Discordou da escolha o propagandista Silva Jardim, que se declarou "livre-atirador".

Na última eleição geral realizada no Império, a 31 de agosto de 1889, apenas dois republicanos foram eleitos deputados, mas não chegaram a tomar posse.


2) Estudados em "O Repúblico Antonio Borges da Fonseca (1808-1872)", trabalho incluído em nossa Contribuição à História da Imprensa Brasileira (Rio, 1945).

(3) As melhores obras sobre a propaganda e a exata extensão do Partido Republicano, antes da proclamação da Republica, são O Ocaso do Império, de Oliveira Viana (São Paulo) 1926), e Da Monarquia à República - História do Partido Republicano do Brasil, do pesquisador norte-americano Sr. George C. A. Boehrer (Rio, 1954)

HISTÓRIA DO BRASIL

Por: Pedro Calmon

Livraria José Olympio Editora - 1959

VOLUME XIX - XLII - A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL - IMPRENSA

Fês-se a Independência ao vozear dos jornais. Imprensa e liberalismo associam-se na elaboração política do império. Tem ela de começo a função educativa - e dogmática - de banhar em "ilustração" o país iletrado, ensinando-lhe, em apressada tradução, o pensamento europeu. Mestre do oficio e precursor desse apostolado patriótico foi em Londres, com o Correio Brasiliense (inspirado inicial do jornalismo opinativo em língua portuguesa), o lúcido Hipólito da Costa, foragido da Inquisição, protegido da maçonaria inglesa, propagandista sensato do futuro da pátria (2).

À lição britânica de Hipólito entre 1808 e 22 corresponde a lição francesa - democrática e revolucionária - da fase da emancipação, a que Evaristo da Veiga, na Aurora Fluminense, opôs a resistência providencial da sua doutrina - realista e moderada. Entre Silva Lisboa, com o Conciliador do Reino Unido, Reclamação do Brasil, Atalaia, e a Astréia, de Antonio José do Amaral (3) ou a Aurora, de Evaristo, responsáveis pelo movimento de 1831, floresceu o pasquim, proliferou o panfleto, a agitação circulou com o Typhis Pernambucano, de Frei Caneca, montou as Sentinelas, de Cipriano Barata, nas guaritas do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro, ou espocou na Malagueta, de Luis Augusto May, no Repúblico, de Antonio Borges da Fonseca (destes, o que durou mais), comunicou-se às folhas volantes da época regencial. A Gazeta ponderada de Evaristo representa a transição da prédica (Primeiro Reinado) para o furor demagógico, em que o título já revelava a índole, agressiva ou presunçosa, do jornal, bem da terra, Guianá, Guiacuru, Indígena, Caboclo, endiabrado, Busca-Pé, Ferrabrás, Mutuca, Marimbondo, patético, Brasil Aflito, Patriota Brasileiro, O Clarim da Verdade, A Trombeta Final, quando não Fênix, Regenerador do Brasil...(4).

Ficam os de nomes tranqüilos, Jornal do Comércio (1827), Correio Mercantil (1850-68), Diário do Rio de Janeiro (1850-77), o Jornal da Tarde (de Ferreira Meneses) - antes das folhas de grande tiragem, Gazeta de Notícias (1875), de Ferreira de Araújo, O País (1884), do Conde de Matosinhos, em que Quintino Bocaiúva comandou a campanha republicana. Na província, Diário de Pernambuco (1825), Correio Paulistano (1854), A Província de São Paulo, Diário da Bahia (1877)... A Lanterna Mágica (1844), Diabo Coxo (São Paulo, 1864), O Cabrião (São Paulo, 1866), O Mosquito (1874), A Semana Ilustrada (1860-76), substituída pela Revista Ilustrada (1876-87) e pela Ilustração Brasileira (1876-79), O Besouro, aliam a caricatura ao humorismo ácido - em que atroam as reivindicações populares. Os artistas do lápis panfletário são Rafael Mendes de Carvalho (5) - pioneiro do desenho cômico - o italiano Angelo Agostini, chegado em 1859, mestre da especialidade, o alemão Henrique Fleiuss, o português Rafael Bordalo Pinheiro (1876). Já os jornais de combate (A Reforma, 1869, A República, 1871-73), e aqueles que apregoam a moderna imprensa, preenchem o vazio que as eleições inverídicas abrem na representação das idéias: arrastam, persuadem, impôem a abolição, a mudança das instituições... À história da cultura interessa a sua contribuição ao pensamento literário, nos protestos de uma elite de escritores naturalistas, poetas rebeldes e políticos dissidentes.

"Depois do eclipse do Correio Mercantil" - escreveu, em 1888, José do Patrocínio - "a imprensa só aprendeu a ser alegre com a alegria do Dr. Ferreira de Araújo" (6).

A Gazeta de Notícias, O País (tirava 32 mil exemplares, em 89) (7), o Jornal do Comércio, cujas várias tinham o segredo dos ministérios, do lado do último gabinete da monarquia a Tribuna Liberal, com Laet, Novidades, com Alcindo Guanabara, na trincheira oposta, o Diário de Notícias, de Rui Barbosa (março de 89), atordoam, com o tumulto dos prelos a evolução do sistema - entre reação e insurreição. Por esse tempo A Cidade do Rio (1887), de Patrocínio, hospeda a literatura boêmia e, a par do ataque aos conservadores, reúne, em arremessos de estréia, Coelho Neto, Bilac, Cruz e Sousa, Murat, Medeiros e Albuquerque, Pardal Mallet... Para a Gazeta e O País escrevem de Lisboa Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Pinheiro Chagas... "Eu tinha grande interesse em colaborar na Gazeta de Notícias do Rio - motivos vários - já pelas compensações materiais que ela faculta, já pela liberdade de ação que oferece aos escritores, já pela esfera do público..." pedia Fialho de Almeida a Ramalho (8).

Destacam-se os folhetinistas, da força de Machado de Assis, Laet, Ferreira de Araújo, Nabuco, Joaquim Serra, Valentim Magalhães, Urbano Duarte, França Júnior. Rijos e altissonantes, os artigos de Rui martelaram o regime com a veemência, que não excluía o patético, de arengas bíblicas. Tornam-se inseparáveis da imprensa política o gosto e a gala das letras, batidas na bigorna da polêmica, da verrina e da prédica.


(2) Vid. Carlos Rizzini, Hipólito da Costa e o Correiro Brasiliense, pág. 26, São Paulo, 1957; MECENAS DOURADO, Hipólito da Costa, Rio, 1957.

(3) Vid. Max Fleiuss, História da Imprensa, in Dicionário do Instituto Histórico, págs. 1.550 e segs.: HÉLIO VIANA, Contribuição à História da Imprensa Brasileira, Rio 1945; GONDIM DA FONSECA, Biografia do Jornalismo Carioca, Rio, 1941; retrospectos em Pernambuco, ALFREDO DE CARVALHO; no Maranhão, CÉSAR MARQUES; na corte, MOREIRA DE AZEVEDO.

(4) HÉLIO VIANA, op. cit. págs. 155 e segs.

(5) Vid. José Antonio Soares de Sousa, "Um caricaturista Brasileiro no Rio da Prata", in Rev. do Inst. Hist., vol. 227.

(6) A Cidade do Rio, 2 de agosto de 1888.

(7) O País, 2 de outubro de 89.

(8) Novas Cartas Inéditas de Eça de Queirós, etc., a Ramalho Ortigão, pág. 226, Rio, 1940.


Como é obrigado a trabalhar o nosso caricaturista esperando a cada momento o decreto de deportação que O Apóstolo reclama do Governo.

"Ah! reverendo, com semelhante calor... é pouca caridade evangélica."

Auto-caricatura de Luigi Borgomainerio (D. Ciccio), italiano de nascimento, que fora diretor artístico, sete anos, do Spirito Foletto, jornal humoristico dos mais aplaudidos da Europa; fundador do Mefistófeles, de Nápoles e colaborador do Pasquino, do Fischietto e de L´Uomo di Pietra, respectivamente de Turim e de Milão, e da Illustration Française, desde o ano de 1865.

De novembro de 1874 a fevereiro de 1876, Borgomainerio doi o desenhista exclusivo da Vida Fluminense, transformada em O Fígaro, em janeiro de 1876.

Como seus colegas do tempo, D. Ciccio também se notabilizou, na sua ideologia, como um dos mais extremados inimigos do clero nada poupando aos religiosos, principalmente contra D. Vital.

Na auto-caricatura ao lado, o artista figura-se, comicamente, sobrecarregado de todos os seus trastes e pertences às costas, palheta, pasta de desenhos, banqueta de trabalho, maletas de roupas, guarda-chuvaa, máquina fotográfica e uma gaiola no alato, em cima de tudo, com o próprio padre diretor do jornal católico, feito um pássaro bisnau, rodeado de croquis onde o memo jornalista aparece, ora garatujado como aranha tecendo sua teia, ora, vingativo, de caçarola sobre um braseiro, fritando o próprio Borgomainerio e Agostini, que saltam na chapa quente como dois diabinhos, de lápis no alto, à moda de espetos infernais. Enquanto isso, o caricaturista vai aproveitando o tempo, para rabiscar ainda a carantonha do inimigo, numa grande pedra litográfica.

Fonte: HISTÓRIA DA CARICATURA NO BRASIL, TERCEIRO VOLUME, POR: HERMAN LIMA DA LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA - RIO DE JANEIRO-1963 PÁGINA 867.

Nota do Almanaque Info

O jornal A Provincia de São Paulo foi inaugurado em 04/01/1875, uma segunda feira; a caricatura acima foi publicada no sábado, 09/01/1875, no jornal A Vida Fluminense.


Ampliando o campo para eventuais pesquisas, incluímos uma reportagem em Flash, extraindo algumas páginas do famoso ALMANAK ADMINISTRATIVO, MERCANTIL E INDUSTRIAL (1875) LAEMMERT,de Eduardo Von Laemmert, em seu trigésimo segundo ano.

Além de alguns aspectos astronômicos e religiosos para o ano de 1875, indicações dos principais jornais e publicações da época.

Em uma das páginas, a publicidade (Sexto ano) do primeiro jornal ilustrado da América no idioma português, redigido por brasileiros, publicado em Nova York, com especial destino para o Brasil; completa em outra página as publicações novas do editores E. & H. Laemmert.

Para entrar, clique na figura ao lado.

Voltando novamente ao centenário jornal O Estado de São Paulo, pela sua importância nos meios de comunicação no Brasil e, também no exterior, natural que encontremos, principalmente na internet,  diversas notas e artigos sobre o mesmo. Com raras exceções, praticamente não há divergências substanciais nos textos, a não ser em alguns dados sobre tiragens que consideramos até certo ponto irrelevantes. Todavia, em nossa opinião, o material mais consistente que encontramos passamos a divulgá-lo.

Fonte: http://www.assis.unesp.br/cedap/cat_periodicos/popup3/o_estado_de_sao_paulo.html

TÍTULO: O Estado de S. Paulo

Endereço: O endereço do periódico mudou inúmeras vezes. À medida que a cidade de São Paulo se desenvolvia e o número de habitantes subia vertiginosamente – a cidade decuplicou sua população durante os trinta e cinco anos que sucederam a chegada da ferrovia – o jornal vendia mais e o espaço exigido para impressão tinha de aumentar. Fundado em 1875, com o nome de A Província de São Paulo, por um grupo de dezesseis abolicionistas e republicanos, o jornal permaneceu com esse nome até 31 de dezembro de 1889, quando, devido à Proclamação da República, intitulou-se O Estado de S. Paulo. Em 1885, redação e oficinas localizavam-se na Rua Imperatriz, 58, esquina do Largo do Rosário. A essa época, a publicação era de 3.300 exemplares diários e havia mais de 2.000 assinantes. Em 1889, esse número se elevou a 4.500 exemplares, em abril. No ano seguinte, saiu a primeira edição com oito páginas e o jornal atingiu a marca de 7.000 exemplares. Com o nascimento da República, a Rua Imperatriz passou a chamar-se Rua Quinze de Novembro. Dois anos depois, em 1892, atingiu-se a marca de 8.000 exemplares diários e em 1897, essa quantia subiu para 18.442, com a cobertura da Guerra de Canudos sob os cuidados de Euclides da Cunha. Em 1906, nova mudança; desta vez, para a Praça Antônio Prado, Palácio Martinico, onde permaneceu até 1929. Esse endereço aparece pela primeira vez no dia 13 de junho de 1906, e a 19 a primeira nota anunciava que a instalação se concluíra, com material tipográfico inteiramente reformado. As oficinas funcionavam no porão, a redação no primeiro andar e a administração num pequeno espaço dando para a Rua do Rosário. No ano posterior, anunciou-se nova estruturação, com a compra de um terreno na Rua 25 de março e sete prédios na Ladeira Porto Geral e Rua Boa Vista para a redação e a administração com tubos pneumáticos ligando a redação e as futuras oficinas à rua 25 de março. Em outubro de 1913 o novo prédio estava concluído. A redação ligava-se agora às oficinas para o transporte de originais e provas, por um tubo pneumático por baixo da Rua do Rosário e Ladeira Porto Geral, numa extensão de 250 metros. Em 1916, o jornal publicava 45.000 exemplares diários e, no ano seguinte, 52.000. Todavia, a Primeira Guerra Mundial e seus reflexos sobre a importação de papel, diminuíram esses números para menos da metade em 1918, quando foram impressos 25.000 exemplares. Anos depois, as oficinas passaram à rua Barão de Duprat, 233 e, em 1929, a redação instalou-se à rua Boa Vista, 186, onde permaneceria durante as décadas de 1930 e 1940. Nos anos cinqüenta, construiu-se um novo prédio na Rua Major Quedinho, 28, que foi o endereço do periódico até a década de 1970 quando, no dia 12 de junho de 1976, completava-se outra mudança, dessa vez para a região da Marginal do Rio Tietê, no Bairro do Limão, onde o jornal mantém, atualmente, suas instalações.

Cidade: São Paulo

Periodicidade: O jornal O Estado de S. Paulo circulava todos os dias, exceto às segundas-feiras. Somente na década de noventa, em 1991, as edições tornaram-se diárias.

Número de páginas: O primeiro número do jornal foi publicado com apenas quatro páginas. Com o passar dos anos, esse número aumentou consideravelmente. Já em 1890, o número havia dobrado, atingindo oito páginas. Entre 1908 e 1916, o número de páginas oscilou entre dez e dezesseis páginas. (1908 – 16 pg; 1916 – de 10 a 12 pg). Na década de trinta, esses números dobraram, pois as edições de domingo alcançavam de 32 a 40 páginas, enquanto as dos outros dias raramente possuíam menos de 14. Mas no que concerne à quantidade, chama a atenção os números publicados na década de 1970, quando, aos domingos, o periódico aparecia com mais de duzentas páginas de classificados. É importante ressaltar que foi justamente devido ao volume de laudas que o jornal recebeu a alcunha de “Estadão”.

Datas-limite: O jornal O Estado de S. Paulo surgiu no ano de 1875 e, desde então, é publicado diariamente. Todavia, há um período que vai de março de 1940 a dezembro de 1945 que os proprietários não contabilizam como parte integrante da história do periódico. Esses cinco anos marcaram a ocupação do jornal pelo regime estadonovista, quando um diretor designado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), Abner Mourão, assumiu não só a direção da redação, mas também os assuntos pertinentes às finanças do jornal.

Exemplares: O CEDAP possui toda a coleção do jornal O Estado de S. Paulo entre os anos de 1875, data de seu surgimento, até 1964, ano do golpe militar.

Redação/Responsável: Grandes nomes do jornalismo brasileiro foram responsáveis pela redação do jornal. Pode-se elencar, como exemplo, os nomes de Alfredo Pujol, Plínio Barreto, Paulo Duarte, Leo Vaz, Rangel Pestana, Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho e Amadeu Amaral. Na década de 1980, o posto de diretor da redação estava sob o comando do jornalista Augusto Nunes, responsável por uma série de inovações tais como a circulação diária (inclusive nas segundas-feiras e feriados) e a adoção de cores no jornal além de reformas gráficas. Anos depois, em 1996, após a morte de Júlio de Mesquita Neto, Ruy Mesquita, à época, diretor do Jornal da Tarde assumiu o comando do periódico.

Ilustração: Um grande nome da caricatura no Brasil associou-se ao jornal O Estado de S. Paulo: Voltolino. Todavia, seus desenhos eram publicados no Estadinho, que teve sua primeira edição em 24 de maio de 1915, com apenas quatro páginas e composto em quatro colunas.

Colaboradores: Em mais de cento e trinta anos de história, o jornal teve inúmeros colaboradores. Por ter uma vinculação cultural muito relevante com os grandes investimentos na educação, como por exemplo, a fundação da Universidade de S. Paulo, os proprietários do jornal contavam sempre com a participação de um grande número de intelectuais das mais diversas áreas. Dentre eles, pode-se citar: Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, professores da Universidade, como Paul Vanorden Shaw, Roger Bastide, Silveira Bueno. Além disso, havia outros escritores que também freqüentavam a redação do periódico, os chamados “sapos”. Um desses escritores era Monteiro Lobato, que também publicou diversos textos nas páginas do matutino.

Caracterização: O jornal passou por diversas reestruturações e reformas gráficas desde 1875. Já em 1892, ocorreu a primeira delas: as letras góticas do cabeçário desapareceram e foram substituídas por caracteres semelhantes ao atual, porém maiores. Além disso, a composição tornou-se mais clara e regular e o aspecto mais agradável. À medida que aumentavam os colaboradores e os anúncios, o número de colunas se elevava, modificando a estruturação gráfica do periódico. Em 1896, ao invés das habituais oito colunas, o jornal apresentava nove e com a importação da primeira máquina Marinoni, italiana, o número de exemplares impressos crescia devido à velocidade de impressão. Em 1903, acrescentou-se mais uma coluna, ficando as páginas, com dez. É interessante destacar que essa estratégia de divisão das colunas não era fixa, assim, quando era essencial chamar a atenção do leitor para algum texto ou informação, uniam-se duas ou mais colunas, compondo um quadro que, imediatamente, se destacava do restante da composição e possibilitava o recorte e a confecção de coleções. Foi assim durante a Segunda Guerra Mundial, quando, iniciado desde 1938, se publicava quadros centralizados nas primeiras e últimas páginas que analisavam e sintetizavam os acontecimentos que se desenrolavam nos mais diversos cenários internacionais. Durante a guerra, o jornal trazia ainda inúmera variedade de fotografias e mapas explicando a estratégia de guerra dos aliados e as conseqüências das vitórias e derrotas em todos os campos de batalha, da Europa ao Pacífico. Entretanto, àquele tempo, os textos eram aglomerados, formando um caleidoscópio de informações que eram sobrepostas, o que tornava a leitura cansativa e difícil. Durante muito tempo, o jornal efetuou reformas para modificar essa realidade, o que parece ter conseguido somente a partir da década de 1980 e 1990, devido, em grande parte à concorrência.

Descrição: Na sua fundação, o jornal defendia os interesses das classes que lutavam pela abolição e pela Proclamação da República. Após essas conquistas, os proprietários do periódico sempre estiveram envolvidos nas constantes batalhas políticas que se travaram durante a República Velha. Apoiaram a campanha civilista de Rui Barbosa para a presidência, aproximaram-se do Partido Republicano Paulista e defenderam os interesses da elite de São Paulo, que tinha no café a sua principal fonte de riquezas. Durante a década de 1920, após o rompimento com o PRP, apoiou a fundação do Partido Democrático e, nos anos 1930, esteve no epicentro de vários e determinantes acontecimentos políticos do Brasil. Em 1930, apoiou a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder; dois anos depois, em 1932, os proprietários do jornal faziam parte da liderança da Revolução Constitucionalista, que, derrotada, culminou com o primeiro exílio que a família Mesquita conheceu. Após o retorno à ordem constitucional, com a Carta de 1934, o jornal lançou a candidatura de Armando de Salles de Oliveira, cunhado de Julio de Mesquita Filho, à presidência da República, em 1937. No mesmo ano, porém, Getúlio Vargas desferiu o golpe do Estado Novo, e, no ano seguinte, novo exílio para Julio de Mesquita Filho, seu cunhado e amigos, dentre eles, Paulo Duarte. Com a queda desse regime, em 1945 e a redemocratização do país, o jornal voltou às mãos da família Mesquita que, desta data em diante, combateu qualquer tentativa de continuidade com o legado getulista. Em 1964, o jornal apoiou o golpe militar e, novamente, em virtude de desentendimentos quanto ao sentido da revolução, foi silenciado, em 1968. Com a presença de um censor na redação, surgiu a idéia de publicar, no lugar das matérias cortadas ou proibidas, receitas de bolo e versos de Camões, o que evidenciava ao leitor, a atuação da ditadura na imprensa. Na década de 1970, o jornal ampliou seu campo de atuação, ao criar a “Agência Estado” e o “Estúdio Eldorado”. Em 2000, lançou o portal do “Estadão” na Internet, apontada como desafio e responsável não só pela diminuição do número de assinaturas e vendas, mas também pela crise porque passa a imprensa mundial.

Fontes:

DUARTE, Paulo. “Julio de Mesquita e o Estado”, In: Centenário de Júlio de Mesquita. São Paulo: Anhambi, 1964, pp. 139-320.

MESQUITA, Ruy. Entrevista ao programa Roda Viva. In:


http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/137/entrevistados/ruy_mesquita_2006.htm.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.


 

Também, elucidativo e de alta credibilidade é o texto encontrado na fonte: Fundação Getúlio Vargas

 

Este texto também foi publicado em http://www.efecade.com.br,  que o autor está construindo. Visite-o e deixe a sua opinião.

Fonte: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1324008

 

Jornal paulista diário e matutino fundado em 4 de janeiro de 1875 com o nome de Província de São Paulo por um grupo liderado por Américo Brasiliense de Almeida Melo e Manuel Ferraz de Campos Sales. Em 1885, ingressou em sua redação Júlio César Ferreira de Mesquita, que em pouco tempo passou a diretor. Desde então, a direção do jornal permaneceu nas mãos da família Mesquita.

 

Organizado por uma comissão nomeada pelo Congresso Republicano de Itu, realizado em 1874, o jornal Província de São Paulo teve como principais articuladores Américo Brasiliense, atuando na cidade de São Paulo, e Campos Sales, atuando em Campinas.

 

A sociedade comanditária constituída para a fundação do jornal incluiu, além dos já citados, os fazendeiros de café do Oeste Novo paulista Américo Brasílio de Campos, Antônio Carlos de Sales, Antônio Pompeu de Camargo, Bento Augusto de Almeida Bicudo, Cândido Vale, o major Diogo de Barros, Francisco de Sales, Francisco Glicério de Cerqueira Leite, Francisco Rangel Pestana, João Francisco de Paula Sousa, João Manuel de Almeida Barbosa, João Tibiriçá Piratininga, João Tobias de Aguiar e Castro, José Alves de Cerqueira César, José de Vasconcelos de Almeida Prado, José Pedroso de Morais Sales, Manuel Elpídio Pereira de Queirós, Martinho Prado Júnior e Rafael Pais de Barros. A redação da folha foi confiada a Francisco Rangel Pestana e Américo Brasílio de Campos.

 

Embora fosse em sua grande maioria favorável à República, esse grupo mostrava-se cauteloso diante da possibilidade real da queda da monarquia. Por essa razão, em lugar de se apresentar como porta-voz do Partido Republicano Paulista (PRP), o novo jornal preferiu adotar uma linha política independente, intervindo de maneira autônoma "na discussão dos assuntos políticos e sociais".

 

Na verdade, a Província de São Paulo defendeu desde o início os interesses da elite agrária, combatendo a centralização política e administrativa imposta pelo Poder Moderador ao longo do Império. O jornal reivindicava igualmente eleições diretas para o Senado e para a presidência das províncias, a separação entre a Igreja e o Estado, a instituição do casamento e dos registros civis e a substituição progressiva do trabalho escravo pelo trabalho livre.

 

Já a partir de seu segundo número, a Província de São Paulo introduziu em suas páginas uma "Seção livre" - mantida, aliás, até hoje - onde eram publicados comentários, discussões religiosas ou políticas e casos pessoais ou polêmicos. Duas ou três vezes por semana eram publicados editoriais de cunho anticlerical, antiescravagista e antimonárquico. Eram parcimoniosas as notícias referentes ao Natal, à Semana Santa, Finados e outras datas religiosas. A chegada da família imperial em visita a São Paulo foi noticiada de modo discreto, "embora respeitoso".
 

Entretanto, as crises financeiras atravessadas pelo jornal em seus primeiros anos de vida conduziram, em 1882, à dissolução da sociedade comanditária que o controlava. A Província de São Paulo passou então à propriedade exclusiva de Francisco Rangel Pestana, tornando-se ao mesmo tempo órgão oficial do PRP. Em outubro de 1884, Rangel Pestana vendeu metade do jornal à firma Alberto Sales e Cia., tornando a comprá-la em dezembro de 1885. Nova sociedade comanditária foi constituída, e nesse momento Júlio César Ferreira de Mesquita, genro de José Alves de Cerqueira César, ingressou no jornal como redator-gerente. A partir de 1888, Júlio Mesquita passaria a co-diretor do jornal, ao lado de Rangel Pestana.

 

Ao longo da década de 1880, a Província de São Paulo desenvolveu duas grandes campanhas, defendendo a abolição da escravatura e a proclamação da República. A campanha abolicionista, mais explicitamente assumida pelo jornal, foi acompanhada da campanha em prol do incremento da imigração de colonos europeus. O jornal aplaudiu entusiasticamente o aparecimento do livro O abolicionismo, de Joaquim Nabuco, na Inglaterra, e apoiou a libertação pacífica dos escravos nas províncias do Amazonas e do Ceará. O barão de Cotegipe era abertamente atacado, acusado de responsável pelo fato de os comícios abolicionistas no Rio de Janeiro "serem perturbados com traques e bombas, recurso de moleques, quando o problema caminha para uma solução pacífica". As propostas de libertação dos escravos contra a prestação de serviços por um prazo determinado eram também condenadas.

 

No final do mês de abril de 1888, o jornal suspendeu a publicação de matérias de cunho abolicionista. Dois dias após a promulgação da Lei Áurea, o editorial, várias matérias e poemas saudavam o fim da escravidão e convidavam o povo a participar de uma marcha comemorativa.

 

A campanha republicana, intensificada na fase final da campanha abolicionista, viu igualmente seus objetivos alcançados com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Nesse momento, o Província de São Paulo passou a chamar-se O Estado de S. Paulo.

 

Fonte: Fundação Getúlio Vargas

 

Este texto também foi publicado em http://www.efecade.com.br,  que o autor está construindo. Visite-o e deixe a sua opinião.

Fonte: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1324008

 

"NENHUMA BOA HISTÓRIA SE GASTA POR MAIS QUE A CONTEMOS" PROVÉRBIO ESCOCÊS

 

Detalhes ampliados das laterais da parte frontal do jornal A Provincia do Estado de São Paulo (4 de janeiro de 1875)

A seguir, do lado esquerdo, imagem digitalizada do jornal; na direita e posterior texto digitado do próprio exemplar do jornal A Provincia do Estado de São Paulo

 

Mais uma folha diaria vem offerecer á provincia de S.Paulo campo livre aos debates tão necessários para solução de problemas importantes que interessam a seu desenvolvimento moral e material.

Creada pelo concurso de capitaes fornecidos por agricultores, commerciantes, homens de letras e capitalistas, está ella no caso de satisfazer ás mais legitimas aspirações da rica e briosa provincia, cujo nome toma para seu titulo; e, isto justifica o seu apparecimento.

Esse motivo faz com que o novo jornal se apresente em condições de poder influir directamente no progresso do paiz e na educação do povo, e habilital-o a ser, como um escriptor distincto já definio s jornal, "o cuidadoso expositor de todos os productos da intelligencia humana, a escola em que entram todos aquelles que sabem soletrar."

Sob taes auspicios a Provincia de São Paulo tomará, na Capital, ao lado dos outros respeitaveis organs de publicidade, um lugar modesto, mas com bons desejos de ser util a causa publica.

Não sendo orgam de partido algum nem estando em seus intuitos advogar os interesses de qualquer d´elles, e por isso mesmo collocando-se em posição de escapar ás imposições do governo, ás paixões partidarias e às seducções inherentes aos que aspiram ao poder e seus proventos, conta a Provincia de São Paulo fazer da sua independencia o apanagio de sua força e a medida da severa moderação, sisudez, franqueza, lealdade e criterio em que fundará o salutar prestigio a que destina-se a imprensa livre e consciente.

Sua imparcialidade não será, por isso mesmo, a imparcialidade do silencio. Conscio de si, certa de que não é licicto a qualquer orgam da imprensa contrahir tal compromisso ante as altas questões de publico interesse sem quebra do prestigio que deve adquirir e manter na sociedade, entrará  a Provincia de São Paulo, nos devidos termos da opportunidade e commedimento, e com a independencia de uma opinião séria e convencida, na analyse da marcha e governação social, em todas as suas espheras, seja qual fôr o matiz politico dominante.

É quasi escusado dizer que a imprensa assim dirigida guardará nas columnas edictoriaes a harmonia de um pensamento politico, o qual não poderá deixar de ser outro se não o do seculo e particularmente a traducção fiel das tendencias bem pronunciadas da provincia de S.Paulo e mesmo d´esta nação, aonde todos se confessam enthusiastas da democracia e louvam-lhe os intuitos pacificos e civilisadores, versando muitas vezes a disputa palavrosa em saber quem mjelhor a comprehende e pratica.

Seguindo rumo de horisontes tão largos e já tão definidos nas seguras licções da historia, e vindo pleitear pela causa nacional em taes condicções e n´esta épocha, em que até mesmo a palavra republica já não assusta, a Provincia de São Paulo, certamente encontrará terreno firme para consolidar-se e dar ao paiz resultados proficuos.

Assim promette na medida progressiva de suas forças auxiliar ao commercio, á lavoura, ás artes, industrias, sciencias, e litteratura, tratando os assumptos que lhes digam respeito, e abrindo espaço a todos os talentos e aptidões que em suas paginas queiram apparecer.

Os extranhos á redacção nenhum outro compromisso tomarão, a não ser o de responder individualmente perante a opinião publica pela verdade ou pelo erro professado.

Em nosso paiz aonde a imprensa é tão cara e o jornal difficil de sustentar-se, ha um erro que acanha a existencia das folhas politicas: quem não pertence, em nenhuma d´ellas apparece, nem mesmo como litterato ou escriptor de sciencias; todos julgam-se compromettidos, responsaveis pelas opiniões politicas da redacção, imprimindo em qualquer secção de taes folhas o cunho de sua individualidade litteraria ou scientifica.

Na Provincia de São Paulo os responsaveis pelas opiniões edictoriaes são exclusivamente os seus redactores, que devem de si conta a seus consocios e ao publico.

Quer louvando, quer censurando, se exforçará sempre a Provincia de São Paulo por ser justa: é este um dever que ella se impõe em virtude de suas condições de folha diaria e que deseja satisfazer os interesses mais geraes de seus assignantes.

Por mais radicaes que sejam as opiniões politicas dos redactores, nada obsta a que elles sejam calmos e leaes julgando os acontecimentos e os homens.

O jornalismo é um sacerdocio, e tanto mais nobre e difficil, quanto é certo que aquelles que o exercem devem muitas vezes esquecer sua individualidade e abafar suas paixões pessoaes, para se lembrarem constantemente de que representam uma força - sociedade ou partido, ou o que quer que ella seja - subjeita a variar em sua intensidade e em suas manifestações.

D´ahi vêm que a philosophia do jornalismo consiste no modo de pôr de accordo certas convicções firmes e vontades energicas, prezas a um dieal, com as tendencias que pronunciam-se no seio da sociedade que se procura servir, moderando, ás vezes, algumas tempestades que se traduzem pelas exigencias das minorias, e impellindo á acção, ao movimento, á vida real, as maioreis, de ordinario impotentes sob o jugo dos interesses arraigados, dos privilegios e da ignorancia.

Depende d´este justo e nobre equilibrio a influencia benefica que o jornal deve exercer em uma sociedade cujos elementos de civilisação mal começam a concretisar-se.

Eis a missão da Provincia de São Paulo nas lutas do jornalismo.

Contando em diversos municipios importantes da provincia cavalheiros interessados na sua existencia, e em quasi todos amigos dedicados, muitos dos quaes se compromettem a collaborar activamente nos trabalhos da redacção, esta folha espera corresponder no apoio que lhe fôr dispensado.

Escriptores amestrados e talentosos, competentissimos alguns para tratarem de assumptos referentes á agricultura e outros de interesse publico, se incumbem de offerecer aos leitores do novo jornal os conselhos que a pratica e a sciencia consorciadas lhes tenham suggerido em beneficio da vida nacional.

A importancia da nova empreza nasce em grande parte do capital associado, que, como é sabido, em muitos casos permitte mais arrojados emprehendimentos do que o individual; e é este um dos casos. Mas o capital associado, para produzir bons resultados, para que se preste aos commettimentos a que raro a fortuna individual se abalança, precisa ser acompanhado de certos elementos de força, que são as bases unicas das emprezas da natureza d´esta: credito em relação a terceiro, e a confiança dos fornecedores dos capitaes n´aquelles que os devem gerir.

N´este genero de emprezas, poucas terão como esta reunido todas as condições para, desassombrada, affrontando os obstaculos que entre nós costumam pear-lhes o desinvolvimento.

Fonte: Primeira página do jornal A PROVINCIA DE SÃO PAULO, segunda feira, 4 de janeiro de 1875.


4 de janeiro de 1875 (Fonte: Primeira página do jornal A PROVINCIA DE SÃO PAULO)

Duplo motivo - o novo anno e o inicio de nossa careira-convida-nos a não deixar passar o momento sem algumas reflexões, genericas embora, sobre a actualidade do paiz.

Em escripto de maior folego seria isso a liquidação philosophica e politica do passado e a denuncia previdente do porvir. Nestas rapidas linhas só pode ser opportuno esboço para que melhores espiritos, na calma da consciencia e no remanso do gabinete, completem a obra, aliás patriotica e capaz de fecundo ensinamento e urgentissimos conselhos à sociedade em geral e aos proprios Palinuros do Estado.

Discutir cdomo philosopho os principios fundamentaes que devem entrar na organisação, governo e progresso dos povos, é trabalho relativamente facil e agradavel; mas fazer a critica justa e sensata das evoluções sociaes, instituições e reformas applicaveis à indole, educação, interesses e destinos de uma nação determinada, julgam os espiritos rectos e reflectivos ser tarefa dificilima, cujo desempenho depende de certa disposição de animo que nem sempre as paixões pessoaes e politicas permittem de modo perduravel ao escriptor.

Quando elle tem a faculdade de achar-se na posição de mero observador dos acontecimentos, póde melhor acompanhar a marcha social, o fio emmaranhado e muita vez escuso de sua evolução historia, as fraquezas ou reroismos do povo e do poder e os symptomas característicos das enfermidades politicas que mais desvellos e mais accurado exame sollicitam expondo com verdade o que deve ser claro e demonstrado, e assim realizando a maxima patriotica de que - descobrir e diagnosticar o mal já é vencel-o em metade.

Esta é a posição que desejamos manter na imprensa.

A missão que nos impuzemos é escabrosa, bem o sabemos; tanto mais quando o nosso objectivo de estudos - a siciedade brazieira actual em seu conjuncto - conta elevadissimo deficit no balanço de minimas e isoladas prosperidades com que confronta o grosso peculio de calamidades a avultar por todos os lados do horisonte e nos mais importantes centos de vitalidade nacional.

É isso hoje reconhecido por aquelles mesmos que não são os mais enthusiastas em procurar a felicidade e grandeza da patria no caminho da liberdade e da demoracia.

De facto, não annuncia o anno de 1875 dias de paz e contentamento geral ao paiz.

O Brazil tambem já está envolvido na (obra ??) de agitação que n´esta ultima quadra do seculo desenove vae attestando um trabalho reaccionario, ousado, constante e terrivel, a estender-se por todas as nações como vasta e caliginosa penumbra, cujo fito é estreitar limites ao pensamento a tolher a natural expansão da autonomia humana.

Não ha aqui declamação. Estudando-se com criterio e sinceridade o presente estado do paiz, não ha desconhecer os perigos e tropeços da carreira incerta, vacillante e tortuosa que levamos.

Ao passo que as paixões se desencadeiam e a sedicção levanta o collo em varias provincias, occultando seus misteriosos intuitos sob a capa de erros e males levados à conta do governo, aproveitando todos os desgostos populares e até os mais repugnantes instinctos que a cegueira e a ignorancia costumam erguer, as verdadeiras dedicações á causa publica rareiam e a confiança nos homens quasi que ha desapparecido.

Reunam a isto os males já bem conhecidos e enraizados no passado - o insoffrivel e malefico  unitarismo das instituições, a impotencia ciumenta e fallaz do poder centralizado - o descallabro dos partidos politicos, reduzidos a entidades apenas nominaes sem que possam representar o grande elemento da força popular no proprio regimen estatuido e dado como vigente; accrescentem o abatimento do espirito publico, o máo estar e a descrença creados por mil circunstancias passadas e augmentadas por mil outras recentes e actuaes, e digam-nos o que jnha sociedade brasileira se póde chamar prosperidade, segurança, vigor, enthusiasmo e virilidade.

O anno de 1875 abre-se, pois, conservando, se não augmentando, em muitos espíritos justas e sérias apprehensões quanto á felicidade d´esta grande nação.

Justas sobretudo, quando attentam os observadores para as correntes reaccionarias da Europa a ganhar curso n´este rico e immenso paiz, aonde o terreno offecece-lhes larga margem, aonde a ignorancia e a passividade social tornan-lhes commodo e facil accesso.

E quaes as barreiras com que contamos para repellir o impeto de taes correntes?

Os factos parecem apontar apenas um desvio, - o poder pessoal. D´elle e só d´elle espera-se que partam, e de facto partem, os actos com que a credulidade e o desespero de causa pretendem que se ha de vencer a impetuosidade da onda invasora.

Sem apoio real na opinião, sem apoio no equilibrio normal dos partidos politicos, sem o prestigio das instituições que lhe deram o ser e por elle proprio desdenhadas, o poder pessoal só conta com a energia do arbitrio, reduzido assim ao triste expediente de mystificar a todos começando por mystificar-se a si.

Enfraquecido pela propria amplitude dictatorial das attribuições que exerce; fugindo à responsabilidade directa, que é entretanto a unica virtude das dictaduras; receando com infantil timidez o influxo da effectiva liberdade; conservador por indole, por educação e interesse; cioso das tradições, das quaes tenta tirar consequencias que já não tem razão de ser e antes offendeu a consciencia dos povos livres; com razão todas as reformas assustam-no, e só as concede deffici8entes, particularisadas a um ou outro ponto, mas contrarias em regra ao desenvolvimento moral e liberal do paiz. Cede pouco, e incompleto. somente para não perder tudo.É n´este mesmo terreno estreito e de convenção que os partidos applaudem ou reprovam a marcha governamental, receando comprometter seu futuro com a indicação e discussão de reformas sérias, radicaes, dictadas entretanto pelo simples bom senso e sobretudo pelos interesses nacionaes.

Esta é a causa real de nossos males; ella está tanto em baixo, como em cima; influe pujante e generalisada sobre todos os pontos da esphera social.

Soffremos todos, no presente e no futuro, e com as gerações que levantam-se tambem soffre a liberdade, cujo elevado intuito é organizar-se como ideal na consciencia dos povos e como elemento practico de progresso e força nas formas de governo.

Ninguem dirá que a situação actual do Brazil seja o meio mais proprio para a fecundação das grandes conicções e idéas generosas que podem garantir a prosperidade nacional.

As lições da Historia plenamente confirmam estas tristes consequencias e o atrazo geral que acarretam para a educação dos povos, sua emancipação estavel e harmonica e sua prosperidade.

Não são palavras sonoras, nem actos de expediente, nem medidas de occasião, os meios que hão de salvar a patria commum, confiada a todos nós, responsáveis pelo futuro como nossos paes foram responsaveis pelo presente.

Necessitamos de uma politica practica, é certo, mas cujos actos sejam inspirados por um ideal determinado, claro e concludente.

O passado e o presente affirmam em tal sentido uma verdade irrecusavel:

A politica brazileira nas suas resoluções mais notorias não revela doctrina assentada e não manifesta rumo certo, não parece visar objectivo conhecido e determinado.

Governo, partidos, e a mesma sociedade, no quanto póde ser esta comprehendida, vacillam, agitam-se no vacuo quando não dormem o somno da atonia, o que tudo revela ausencia de convicções, de observação, de tirocinio, experiencia e estudo de principios.

Se todos estes factos explicam o retrahimento egoísta, a infifferença, e ao par desta o exclusivo predominio das más paixões, e o geral abatimento da sociedade brasileira, é certo que tambem a disculpam e em boa parte absolvem-na de taes males.

Como nacionalidade nós somos um producto, - uma resultante de elementos e causas anteriors.

Os que pretendem com patriotismo e boa vontade abrir nova era e novo caminho ao paiz, procurem antes de tudo sanear as fontes d´onde o maleficio deriva.

É escusado observar que estas causas e effeitos aqui enfeixados como esboço da actualidade geral do paiz egualmente influem e explicam o máo estar e a marcha lenta e doentia das provincias.

Será esta idéa, com particular referencia à nossa provincia, uma das theses que mais aturado estudo nos ha de merecer em ulteriores escriptos.

É digna do empenho, ella, que, apezar dos obstaculos, campeia entre as irmãs como o vivo e melhor exemplo de energia e civismo.

 

Na parte inferior da capa do jornal A Provincia do Estado de São Paulo encontramos a primeira parte do FOLHETIM- Magdalena, por Julio Sandeau

Para ilustrar de forma muito elucidativa, incluimos o texto abaixo extraido da fonte:

http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=821

 

As duas páginas internas do jornal A Provincia do Estado de São Paulo de 04/01/1875

 

Para ver mais detalhes do jornal A Provincia de S. Paulo de 1875, inclusive com as propagandas da quarta página, clicar na figura ao lado

Bernard Grégoire, imigrante francês, foi o primeiro jornaleiro do jornal A Provincia de São Paulo; saia às ruas montado em um cavalo, tocando uma corneta para chamar a atenção dos leitores.

No inicio satirizado pelos concorrentes (pioneiro em venda avulsa no pais) , o jornal aumentou muito a sua tiragem, sendo que, décadas depois, pela sua figura popular e folclórica,  Bernard Grégoire , tornou-se o símbolo do jornal.

 

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