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Por: H.C. ANDERSON -É uma historia terrível, disse uma galinha, e isto na extremidade da cidade onde esse fato aconteceu. - É uma historia terrível. Não me atrevo dormir só esta noite. Ainda bem que somos muitas no galinheiro. E começou a contar até que as outras galinhas ficaram com as penas arrepiadas e o galo deixou cair a crista - É certíssimo... Porém nós começaremos pelo principio que foi na outra extremidade da cidade, num galinheiro. Caia a tarde e as galinhas se acomodavam nos seus poleiros. Uma delas de penas brancas e patas pequenas, que punho o seu ovo regulamentar e era, como galinha, respeitável em todos os sentidos, ao empoleirar-se, coçou-se com o bico e perdeu uma pena. - Lá se vai, disse ela; quantas mais perder mais formosa hei de ficar. Ela disse-o para gracejar, era a espirituosa do bando, além do que, como já disse era muito digna. E adormeceu. O galinheiro estava ás escuras. Uma galinha ao lado da outra, e a mais próxima estava acordada. Ouvia e não ouvia, como se deve fazer no mundo para viver em paz com todos; porém, não pode deixar de contá-lo á sua outra vizinha. - Não ouviste o que se acaba de dizer aqui? Não digo o nome de ninguém, porém, há uma galinha que se quer depenar para parecer melhor. Se eu fosse galo despreza-la-ia. Por cima do galinheiro havia uma coruja com o mocho e as crias. Toda a família era de ouvido fino, e como não perderam uma palavra, começaram a revirar os olhos nas órbitas e a mãe a sacudir as azas. - Não escuteis estas coisas. Porém já estais inteirados seguramente. Ouvi-as com os meus próprios ouvidos e muito habituados devem estar a enormidades como estas. Há uma galinha que a tal ponto esqueceu o respeito de si mesma que se está depenando, pena por pena e deixa o galo vê-la nesta tarefa. - Prenez garde aux enfants! disse o mocho pai. Não é coisa para os pequenos ouvirem. - Todavia quero contá-lo á que mora defronte, é uma coruja tão sensata... e a mãe saiu voando. - Yu, yu, yuyu! cochicharam as duas juntas á porta do pombal. - Ouviu a senhora? Ouviu a senhora?... Yuyu. Há uma galinha que se depenou por causa do galo. E está gelando, se já não gelou de uma vez. Yuyu! - Onde? Onde? perguntaram as pombas. - No pátio aqui ao pé. Quase que poderia dizer que eu mesma a vi. É uma história que quase não se pode contar, porém é certíssima. - Palavra por palavra, tal como a contamos, disseram as pombas no seu cercado. - Uma galinha, e há quem diga que são duas, depenaram-se, pena por pena para distinguirem-se das demais e chamar assim a atenção do galo. É uma brincadeira arriscada, pois podem apanhar um resfriado e uma febre, e morrerem ambas. - Que! muitas mais, cacarejou o galo pousando na estacada com um vôo. Embora lhe pesassem os olhos de sono, contudo cacarejou: - Morreram três galinhas de amores infelizes. Arrancaram-se a si mesmas todas as penas. É uma história feia com a qual não quero ficar. Que corra! que corra! - Que corra! silvaram os morcegos; cacarejam as galinhas e os galos. - Que corra! que corra! E assim, de galinheiro em galinheiro, voltou a história ao sitio de onde havia partido. - Cinco galinhas, já se dizia, depenaram-se para mostrar qual delas se havia mais prejudicado por amor do galo, e logo bicaram-se até se matarem, para escândalo e vergonha de sua família e grande perda para o dono. E a galinha do começo, a quem havia caído uma só pena insignificante, como é natural, não reconheceu a sua própria historia. E como era uma galinha de bem disse: - Essas desgraçadas inspiram-me desprezo! Porém há muitas como elas! Semelhantes vergonhas deviam-se calar, e por mim receio que esta historia saia nos jornais e corra por todo o pais, como o mereceram essas galinhas e até a sua família. E saiu nos jornais e assim se imprimiu, e isto é certíssimo,de como uma triste pena caída se pode transformar em cinco galinhas depenadas! |