mar 15 2017

O POETA QUE ERA LADRÃO – FRANÇOIS VILLON

Fonte da imagem e complemento. Clicar na figura.

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François Villon (século XV) tem sido chamado “nosso triste, mau, alegre e louco irmão.” Foi o mais hábil larápio de Paris e o maior poeta da França. Poucos homens tem sido culpados de crimes mais vis. E pouco homem tem escrito mais perfeitas canções.
Que estranha combinação foi ele de bestialidade e de sublimidade! Aos vinte anos era mestre em surrupiar bolsas de dinheiro; aos vinte e cinco matou um padre; aos trinta era o chefe de uma quadrilha de meliantes. Contudo durante todo esse tempo escreveu poemas que ficaram cantando na memória e no coração do mundo.
Nascido na sarjeta, François tornou-se na idade de doze anos, pupilo dum bondoso padre chamado Villon. François adotou o nome de seu benfeitor e começou imediatamente a glorificá-lo com a sua poesia e a infelicitá-lo com seu procedimento. O bom e velho padre conseguiu ensinar-lhe e cultuar a beleza, mas nunca pode ensinar-lhe a praticar a honestidade.
O tutor enviou Villon para o colégio. Mas o jovem poeta evitou a sociedade de seus companheiros de estudo. Preferiu juntar-se à confraria dos ladrões.
Tornou-se poeta laureado deles. Quando qualquer deles era condenado à forca, Villon enviava-o ao inferno com um poema de bon voyage, de surpreendente beleza e de obcena zombaria.
Estava sempre se metendo em dificuldades, e sal tutor vivia sempre a tirá-lo desses apuros. Sua vida era uma contínua jornada duma prisão para outra. Freqüentemente prometia a seu amo que “essa complicação será a última. De agora em diante, vou mudar de vida.” Mas nunca cumpriu sua promessa.
Todo o dinheiro que roubava, gastava-o com mulheres e vinho. Era um belo maroto, e as mulheres da corte, tanto quanto as mulheres das ruas, achavam-no irresistível.
Na véspera de Natal, do ano de 1465, assaltou o Colégio de Navarra. Fugindo de París, foi agarrado e preso em Orleans. Duas vezes foi condenado à morte e em ambas escapou, graças à intercessão de seus amigos.
E enquanto o seu corpo apodrecia na prisão, seu pensamento florescia no poema do Grande Testamento. É um poema extraordinário, percorrendo toda a distancia que separa os charcos das estrelas. A mais famosa passagem desse poema é a Balada da Mulheres Mortas, com sua amarga observação de que todo o encanto deve morrer, e com o obsidente estribilho
“As neves doutrora onde estão?”
Esse Grande Testamento de Villon é uma franca confissão de sua horrenda vida e é igualmente uma franca rogativa do divino perdão. O poema termina com o seu autobiográfico epitáfio:
“Este sujeito inútil, maluco e estouvado nunca teve uma travessa ou coisa que lhe pusesse em cima. Descanso nunca teve até que veio a morte e pô-lo a pontapés para fora do mundo. Senhor de Misericórdia, tende piedade de sua alma e concedei-lhe a eterna paz.”Descanso nunca teve. A última olhadela que lhe pomos é em París, numa tarde nevoenta. Sua pena de morte foi comutada em banimento perpétuo. E assim, pondo seu gasto surrão aos ombros, desaparece na escuridão crescente, a mais patética e curiosa combinação, nos anais da literatura, de um pensamento vigoroso e de uma alma deformada.
Fonte:
As Maravilhas do Conhecimento Humano
Volume I(I – LITERATURA – ARTE – NATUREZA – FILOSOFIA
Autor: Henry Thomas
Editora Globo – 1956

 

 
 

 

 


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